
BRASÍLIA, 20 de setembro de 2026 — A cúpula do Banco Master deu alta prioridade aos pagamentos a uma advogada que o time de Daniel Vorcaro tratava como sócia do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Dalide Corrêa, que recebeu R$ 33 milhões do Master, atuava a favor dos interesses do ex-CEO no mercado de precatórios.
Uma das disputas judiciais no setor que chegaram ao Supremo levou o ex-banqueiro a buscar uma aproximação com o decano da Corte, como mostramos na última quinta.
Em abril de 2024, Gilmar recebeu Vorcaro e advogados do banco em seu gabinete no STF para tratar sobre um processo relativo a um precatório da usina sucroalcooleira Alcídia, segundo informação prestada à equipe do blog pelo próprio gabinete do ministro. O decano, porém, votou contra os interesses de Vorcaro.
Em dezembro de 2024, numa troca de mensagem em que Vorcaro discute com seu diretor jurídico, Luiz Rennó, cobranças de atrasados que Dalide vinha fazendo, o auxiliar escreveu para o chefe: “Fala amigo! Aquele pagamento é para Dalide! Aqueles precatórios ! Ela é sócia do GM stf! O Leandro sócio dela é muito complicado e eles operam com o BTG. Autoriza esse.”
A pressão frequente por repasses a Dalide consta no acervo do celular de Vorcaro apreendido pela Polícia Federal (PF). Os diálogos, obtidos com exclusividade pela equipe do blog, tratam de um atraso na liberação de uma fatura de R$ 15 milhões à advogada. Nesse caso, além da proximidade com Gilmar Mendes, o GM, pesava também uma suposta associação com o BTG Pactual de André Esteves, concorrente que o ex-banqueiro tinha como principal rival.
Procurados pela equipe da coluna, o ministro Gilmar Mendes e a advogada Dalide Corrêa disseram que jamais mantiveram qualquer sociedade. Ela exerceu um cargo de direção no Instituto Brasileiro de Ensino, Brasileiro e Pesquisa (IDP), a faculdade fundada por Gilmar que hoje é comandada por um de seus filhos.
O magistrado declarou ainda que a associação feita pelos executivos do Master é “falsa” e que “não tem conhecimento de atuação” de Dalide “em processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro”. A advogada afirmou ainda não manter relação com o BTG
Como revelou o Estadão na última quinta-feira, uma auditoria interna do BRB que se debruçou sobre a malsucedida tentativa de compra do Master pelo banco estatal de Brasília detectou o pagamento da cifra milionária ao escritório de Dalide pela instituição de Vorcaro.
Ainda segundo o Estadão, a Polícia Federal também encontrou mensagens nas quais um dos executivos do Master, Alberto Félix, trata a advogada como “canal direto com o STF”.
Dalide deixou o IDP em 2016. Em nota, o gabinete de Gilmar afirmou que Dalide “nunca foi sócia do IDP” e apenas ocupou o “cargo técnico de diretora-geral”. A advogada também negou vínculo societário com a instituição de ensino e disse ter ocupado a função de direção “por cerca de nove anos”.
Pouco mais de três meses antes do alerta acerca da sócia de “GM stf”, Rennó já havia advertido Vorcaro sobre a prioridade no pagamento de uma fatura de R$ 15 milhões destinada a Dalide.
“Amigo, tudo bem? Quando possível dê ok com certa urgência ao Félix! Turma na outra ponta cobrando forte”, escreveu o diretor jurídico do Master ao CEO em 27 de agosto de 2024 em referência a Alberto Félix, então superintendente-executivo de tesouraria.
“Sobre o que”, retrucou Vorcaro.
“Aquela fatura de 15m para a Dra Dalide ! André te mandou a explicação ontem! Obtivemos vitória importante no caso da Catende!”, respondeu Rennó.
O êxito na Justiça citado pelo diretor jurídico se refere a precatórios da Usina Catende, de Pernambuco. Assim como no caso da Usina Alcídia, que levou Daniel Vorcaro a buscar Gilmar Mendes e seu então cunhado, o ex-senador Chiquinho Feitosa (Republicanos), o Master acompanhava com lupa julgamentos sobre precatórios judiciais do setor sucroalcooleiro.
São causas bilionárias que se arrastam há mais de 30 anos, derivadas de reivindicações de usinas por indenizações referentes ao tabelamento de preços de produtos do setor pelo governo federal durante os anos 80 e 90.
No período de expansão meteórica do Master, o modelo de negócios do banco era em boa parte sustentado por precatórios – ordens de pagamento determinadas pela Justiça a municípios, estados ou da União que costumam demorar anos para serem liberados.
O banco comprava esses papéis a um preço baixo e não só inflacionava os valores no balanço, como também os considerava créditos de recebimento garantido. Em 2024, 47% da carteira era composta por precatórios e direitos creditórios comprados pelo Master.
Além disso, parte dos papéis eram vendidos para fundos da Reag que os compravam por valores superfaturados como forma de desviar o dinheiro do banco.







