
BRASÍLIA, 27 de setembro de 2026 — Protagonista do escândalo que abalou o Judiciário e por pouco não cortou a cabeça do chefe do Ministério Público, o banqueiro Daniel Vorcaro se vangloriou ao advogado Ciro Soares da proximidade que considerava ter de altas autoridades de Brasília e dos eventos de que participava com elas.
Em 31 de janeiro de 2024, foi específico ao listar ao interlocutor um almoço a que iria como convidado e que teria a presença do procurador-geral da República Paulo Gonet.
A mensagem para Soares integra o acervo de diálogos extraídos de um dos telefones celulares do ex-dono do Banco Master analisados pela Polícia Federal e utilizado como base para o pedido de abertura de investigação contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, autoridade que trocou pelo menos 52 mensagens com o executivo.
“Vou estar no almoço do esfera com Gonet. O Gilmar deve estar”, escreveu ao advogado. No dia seguinte, continuou, participaria da posse do ministro aposentado do STF Ricardo Lewandowski como chefe da pasta da Justiça.
Lewandowski, como se sabe, foi contratado como consultor jurídico pelo Master depois que deixou a Suprema Corte, em abril de 2023, e seu escritório recebeu pelo menos 5 milhões de reais em honorários do banco.

O Grupo Esfera promoveu um almoço em homenagem a Gonet no último dia de janeiro de 2024, no qual o procurador-geral discursou sobre suas metas à frente do MP e teceu loas ao amigo e decano do STF Gilmar Mendes.
“Todos temos um modelo, e o modelo de todo jurista deve ser Gilmar Mendes. Posso dizer aos senhores que a condução da PGR vai ser seguida nesse trilho, de respeito aos valores da democracia, respeito aos valores constitucionais da convivência entre as pessoas e no respeito aos valores da ecologia e do progresso”, disse.
Segundo o Esfera, além de Vorcaro, eram cerca 40 os convidados para o evento, entre eles o ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro Fábio Faria, personagem central nas articulações do banqueiro para acessar autoridades.
Na sexta (25), por cinco votos a quatro, o Conselho Superior do Ministério Público Federal decidiu arquivar um pedido de aprofundamento de investigações sobre as relações de Gonet com Vorcaro. Por unanimidade, o colegiado também rejeitou afastar o procurador-geral dos processos relacionados ao banco.
Gonet foi um dos convidados para a degustação de uísque Macallan feita por Vorcaro a altas autoridades da República em 2024, havia sido convidado para um evento semelhante em 2025, que acabou não ocorrendo, e aparece em uma foto, revelada pelo jornal O Globo, com um charuto em frente ao ex-controlador do Master em uma mesa repleta de copos de bebida.
Diante dele estava Daniel Vorcaro.
O nome do procurador-geral já havia sido citado no relatório policial feito sobre as relações do banqueiro com Alexandre de Moraes e que mostra, entre outras coisas, um pedido de Vorcaro para que o ministro acionasse o PGR para evitar “sacanagem” nas investigações.
Em outros diálogos, o próprio Gonet comemora a possível reedição do encontro patrocinado pelo ex-dono do Master com whisky de luxo Macallan.
Desde então o procurador-geral, a quem cabe denunciar eventuais autoridades pilhadas no escândalo financeiro, defende a nulidade das descobertas sob o argumento de que nem ele nem a Polícia Federal pediram para se apurar a parceria entre o ministro do STF e o ex-controlador do banco.
Originalmente, André Mendonça havia determinado que a Polícia Federal produzisse um relatório para identificar o destinatário de mensagens encaminhadas por Vorcaro para influenciar “Paulo” e “Andrei”. Paulo e Andrei, concluíram os investigadores, são Paulo Gonet, o procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, o diretor-geral da Polícia Federal.
Mais ainda: a partir da recuperação de mensagens escritas no bloco de notas do ex-banqueiro, a PF apontou que os pedidos estavam endereçados ao número de telefone registrado como “Alexandre Moraes Brasília”.
Como o teor das réplicas foi apagado e o aparelho do magistrado nunca foi apreendido, não é possível saber o que ele respondeu aos pedidos de socorro.
Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro disse que “repudia a divulgação seletiva e fragmentada de supostas conversas privadas fora de seu devido contexto”.
“Tal prática visa unicamente promover a espetacularização do caso e se lastreia em vazamentos criminosos de suposto conjunto probatório protegido por sigilo, nos termos da lei. A defesa rejeita categoricamente qualquer tentativa de transformar relacionamentos pessoais, profissionais ou institucionais em indício ou prova de conduta ilícita”.







