
BRASÍLIA, 25 de setembro de 2026 — O escritório da advogada Camilla Ramos, tratado por assessores de Daniel Vorcaro como sendo da “turma do KN” e contratado pelo Banco Master para defender os interesses da instituição em 20 ações de 12 casos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro.
Mas só atuou efetivamente em um: exatamente aquele que corria no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), onde o marido dela, Newton Ramos Pereira Neto, é desembargador. Nesta quinta (24), a Polícia Federal realizou operação no gabinete dele.
O contrato entre o Master o o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos (QVQR) previa honorários de 5% líquidos sobre o valor recebido pelo banco em casos que envolvem R$ 8,5 bilhões, o que poderia render até R$ 427 milhões aos advogados em casa de êxito.
O acordo lista 20 processos, de 12 casos, nos quais o escritório de Camilla deveriam prestar serviço “nos autos das ações judiciais”. Em dezembro de 2024, ela e o filho, Gabriel Newton, foram habilitados em todos os esses processos pelo escritório Sacramone, Orleans e Bragança Advogados (SOB), que já trabalhava para o banco.
A habilitação ocorreu em dezembro de 2024. Desde então, em 19 processos apenas o SOB continua peticionando como representante do Master e não há qualquer participação do escritório de Camilla Ramos nos autos, o que era o escopo do trabalho.
O marido dela, o desembargador Newton Ramos, repassava a Vorcaro pedidos do ministro Kassio Nunes Marques, como hospedagem no hotel Fasano.
A alcunha “Turma do KN” aparece nas mensagens em que os assessores buscam o aval de Vorcaro para as demandas de Newton e da mulher. Nunes Marques era desembargador do TRF-1 antes de se tornar ministro do STF e ainda tem forte influência no tribunal.
EXCEÇÃO É PROCESSO NO TRF-1
O único processo em que Camilla Ramos peticionou em nome do Master corre no TRF-1. Nele, presidência do tribunal acolheu um pedido da União em meados de 2022 e não só suspendeu a expedição de precatórios de indenização a oito usinas que reclamam ter sido lesadas pelo controle de preços que vingou entre as décadas de 1980 e 1990 como também travou o pagamento de valores até o trânsito em julgado.
Assim que passou a defender o Master, o escritório da Camilla Ramos pediu uma audiência com o então presidente do TRF-1, desembargador João Batista Moreira, e peticionou um requerimento de desmembramento do processo, que envolvia os casos de oito usinas.
O pedido foi protocolado em 22 de janeiro de 2025. Um dia depois, sem ouvir os representantes das demais usinas, Moreira acolheu o pleito do banco.
A União recorreu, reclamando não ter sido ouvida antes da decisão e que o Master não teria legitimidade ou procuração das demais usinas para pedir o desmembramento – o mérito até aqui não foi julgado.
A apresentação de contrarrazões foi o outro documento produzido pelo escritório de Camilla Ramos identificado em 20 processos, após 21 meses de serviço. Quando procurado, o escritório detalhou ter também realizado reuniões com o presidente do TRF-1 e com o Advogado Geral da União.
A empresa tem contrato válido para ficar com 5% de tudo que o Master receber nesses casos, tendo como escopo do serviço atuar nos autos.
Nos demais 19, ainda que também tenha habilitado o QVQR, o Master tem sido representado exclusivamente pelo SOB, que informou à Justiça ter um contrato para ficar com 2% do êxito, ante os 5% comprometidos com o QVQR. Desde a liquidação do banco, a defesa do Master pelo SOB é coordenada com o liquidante do banco.
Ainda que Vorcaro não tenha mais o controle do banco, Camilla tem visitado com frequência o banqueiro na Papudinha, como revelou a Folha. Em resposta ao jornal, a advogada disse que os encontros servem para ela levar a Vorcaro informações sobre o andamento dos processos.
Na ação que corre no TRF1, porém, não há qualquer decisão ou peticionamento do Master desde maio de 2025. Questionado, o escritório citou seis andamentos relevantes nos 20 processos desde que Vorcaro está preso: um em abril, dois em maio e três entre 10 e 18 de setembro.
O QUE DIZ O ESCRITÓRIO
“O escritório Queiroga, Vieira, Queiroz e Ramos esclarece que se encontra regularmente habilitado para a prestação de serviços jurídicos em casos envolvendo precatórios adquiridos pelo Banco Master. Por se tratar de contrato sem previsão de pró-labore, mas de êxito, a banca de advocacia jámais recebeu repasses de quaisquer valores do banco.
Como previsto no Estatuto da Advocacia e no Código de Processo Civil, qualquer advogado regularmente constituído pode praticar individualmente os atos processuais necessários.
A atuação da advogada e do escritório na defesa dos interesses do Banco Master sempre ocorreu dentro dos limites legais, mediante a devida contratação e regular habilitação nos respectivos processos.”







