BRECHA IMPUNE

Senado não exige devolução de diárias não gastas em viagens

Andre Reis
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Senado permite que parlamentares fiquem com valores excedentes de viagens. Lacuna veio à tona após PF achar US$ 55 mil e 33 mil euros com senador Jaques Wagner.

BRASÍLIA, 20 de junho de 2026  O Senado não tem regra que obrigue senadores a devolver diárias não usadas em viagens. Isso quer dizer que eles podem ficar com o dinheiro que sobra. A brecha ficou clara depois que a Polícia Federal encontrou dinheiro em espécie na casa do senador Jaques Wagner (PT-BA). Foram US$ 55 mil e 33 mil euros, o que dá cerca de R$ 471 mil.

Wagner disse que esse valor veio de sobras de diárias de missões oficiais. O Senado confirmou ao jornal Folha de S.Paulo que não há norma sobre devolução. Só é preciso devolver se a viagem for cancelada ou se o senador voltar antes do previsto.

As diárias servem para pagar hospedagem, alimentação e transporte. O pagamento pode ser feito em conta ou em espécie. Como a verba é indenizatória, não há cobrança de Imposto de Renda.

Em 2026, viagens fora da América do Sul pagam US$ 656,46 por dia (R$ 3,3 mil). Para outros destinos internacionais, o valor é US$ 557 (R$ 2,8 mil). Em viagens nacionais, o valor varia entre R$ 726 e R$ 916, conforme o tamanho da cidade.

Servidores também recebem diárias, mas os valores mudam de acordo com o cargo. De janeiro a meados de junho deste ano, o Senado gastou mais de R$ 1 milhão em diárias internacionais.

Desde 2019, Jaques Wagner recebeu R$ 336,9 mil em diárias. Esse valor é menor do que o dinheiro apreendido. O senador explicou que parte do montante veio de recursos próprios. Ele fez 30 viagens internacionais no mandato, para países como Japão, Portugal, Emirados Árabes e Egito.

Em maio, foi à China visitar a fábrica da BYD e recebeu R$ 15 mil. Em julho de 2025, foi a Washington e ganhou quase R$ 25 mil.

A PF investiga se Wagner recebeu valores do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Também apura a compra de um apartamento em Salvador por R$ 2,5 milhões. Investigações apontam que a empresa de Augusto Lima pagou R$ 3,5 milhões ao “núcleo familiar” do senador, segundo o ministro André Mendonça, relator do caso.

Lima foi preso na Operação Compliance Zero, que apura fraudes em carteiras de crédito do Master vendidas ao BRB.

Wagner negou à Band News TV ter recebido dinheiro do Master. Mas admitiu que pediu a Lima que comprasse o apartamento. Ele disse que queria ajudar a filha e pretendia recomprar o imóvel depois.

“O apartamento está em construção. Eu teria que vender o da minha filha para complementar ou ela financiar”, explicou.

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