FIÉIS REFÉNS

Resgatados pedem para voltar para igreja de pastor preso

Andre Reis
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igreja pastor
Grupo retirado de igreja investigada por trabalho análogo à escravidão manifestou desejo de retornar ao alojamento em Paço do Lumiar

PAÇO DO LUMIAR, 11 de maio de 2026  Mais de 40 pessoas resgatadas da sede da Shekinah House Church afirmaram que desejam retornar ao local onde viviam antes da operação realizada por auditores-fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego. A ação ocorreu em 7 de maio, em Paço do Lumiar, e identificou trabalhadores em condições classificadas pelas autoridades como análogas à escravidão.

A igreja era comandada pelo pastor David Gonçalves Silva, preso sob suspeita de abusos sexuais, agressões físicas, violência psicológica e outros crimes denunciados por ex-integrantes da comunidade religiosa. Após o resgate, os trabalhadores foram encaminhados para um espaço de acolhimento oferecido pela Secretaria de Direitos Humanos do Maranhão.

Parte do grupo demonstrou resistência à permanência no abrigo e informou que pretende retornar à região da igreja. Segundo o secretário adjunto de Direitos Humanos do Maranhão, Eudes Bezerra, os trabalhadores receberam orientações sobre os direitos garantidos após o resgate e sobre as opções de acolhimento disponibilizadas pelo Estado.

De acordo com o secretário, nenhuma pessoa foi obrigada a permanecer no local oferecido pelo governo estadual. Além disso, ele destacou que o acesso ao imóvel segue restrito e que o Estado não possui meios legais para impedir que os resgatados deixem o acolhimento.

O Ministério Público do Trabalho deverá realizar triagem para garantir acesso ao seguro-desemprego especial previsto nesses casos.

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Segundo o governo estadual, muitos trabalhadores retirados da igreja não se identificam como vítimas de exploração. Para Eudes Bezerra, a situação demonstra a complexidade do caso e o vínculo emocional criado dentro da instituição religiosa investigada pelas autoridades.

A Shekinah House Church já havia sido alvo de operação conjunta do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal em 27 de abril. Na ocasião, as autoridades investigavam suspeitas de trabalho análogo à escravidão, mas não encontraram elementos suficientes para formalizar o enquadramento naquele momento.

Nos dias seguintes, mais de dez denúncias foram registradas contra o pastor David Gonçalves Silva. Ele passou a ser investigado por crimes como estelionato, estupro de vulnerável, associação criminosa e posse sexual mediante fraude.

As investigações também apontam que a igreja funcionaria como espaço terapêutico sem autorização legal e sem comprovação técnica dos responsáveis pelos atendimentos.

A Polícia Federal também apura possíveis irregularidades nas condições de moradia, segurança e controle dos frequentadores da instituição. David Gonçalves Silva foi preso no dia 17 de abril. Natural do Ceará, ele é suspeito de impor castigos físicos e psicológicos a integrantes da igreja, incluindo jovens vindos do Pará e do Ceará.

Segundo a Polícia Civil, o sistema de punições imposto pelo pastor teria funcionado durante anos como forma de controle sobre dezenas de fiéis em situação de vulnerabilidade social. Entre os relatos estão denúncias de agressões físicas, humilhações constantes, isolamento e restrição alimentar.

Uma das punições descritas pelas vítimas era chamada de “readas”, prática que consistia em chicotadas aplicadas com um reio. Conforme os depoimentos, algumas pessoas receberam entre 15 e 25 golpes como castigo disciplinar. Áudios obtidos pelas autoridades também indicam que a privação de comida teria sido utilizada como punição.

As vítimas afirmaram ainda que os frequentadores eram chamados de “piões”, enquanto o alojamento coletivo era conhecido como “baia”. Outro tipo de punição envolvia a repetição escrita de frases como forma de humilhação. Algumas vítimas relataram que foram obrigadas a escrever mais de 100 vezes mensagens de submissão ao líder religioso.

Além das denúncias de violência física e psicológica, a Polícia Civil investiga acusações de abusos sexuais supostamente praticados pelo pastor. Segundo os investigadores, os homens seriam os principais alvos das agressões sexuais dentro da comunidade religiosa.

Uma das vítimas relatou que o líder religioso utilizava o medo e os castigos para impor controle sobre os integrantes. Os depoimentos também apontam consequências psicológicas profundas entre os ex-fiéis e indicam que os moradores eram monitorados constantemente, sem liberdade de contato externo.

Segundo os relatos, homens e mulheres eram separados e havia vigilância permanente por câmeras, inclusive em momentos íntimos. Uma mulher ouvida pela polícia afirmou ter sofrido agressões, isolamento e restrição de comunicação dentro da instituição religiosa.

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