
PAÇO DO LUMIAR, 07 de maio de 2026 — Mais de 40 trabalhadores foram resgatados nesta quinta (7) durante uma operação realizada pelo Ministério do Trabalho, Polícia Federal e Ministério Público do Trabalho do Maranhão na sede da Shekinah House Church, em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís.
A ação identificou pessoas submetidas a condições degradantes no imóvel ligado ao pastor David Gonçalves Silva, preso desde abril.
Segundo o MPT-MA, os trabalhadores estavam em situação análoga à escravidão. Além disso, a Vigilância Sanitária interditou o espaço após a fiscalização.
Os resgatados serão encaminhados para acolhimento organizado pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Parte deles, no entanto, deverá permanecer na propriedade para cuidar dos animais do haras existente no local.
A operação contou ainda com apoio da Polícia Militar, Ministério Público do Estado, Defensoria Pública, assistentes sociais e equipes do Samu. Conforme os órgãos envolvidos, a complexidade da ocorrência exigiu atuação conjunta para garantir segurança e atendimento aos trabalhadores resgatados.
A sede da igreja já havia sido alvo de investigação em 27 de abril, após denúncias de trabalho degradante. Na ocasião, as buscas não reuniram elementos suficientes para configurar o crime. Entretanto, novas diligências e depoimentos levaram ao avanço das investigações sobre o caso de trabalho degradante no imóvel.
Nos últimos dias, mais de dez pessoas procuraram a polícia para denunciar o pastor David Gonçalves Silva. Ele é investigado por estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.
Segundo a Polícia Federal, a igreja também funcionava como espaço terapêutico sem regularização legal ou comprovação técnica dos responsáveis.
RELATOS DESCREVEM PUNIÇÕES E CONTROLE
Depoimentos recolhidos durante a operação apontam que fiéis sofriam agressões físicas e psicológicas. De acordo com a investigação, um adolescente permaneceu horas em pé, sem dormir, enquanto escrevia repetidamente a frase “Eu preciso aprender a respeitar meu líder”. O vídeo com o castigo foi anexado ao inquérito policial.
A Polícia Civil informou que o pastor utilizava punições para controlar entre 100 e 150 fiéis. Entre os castigos identificados estavam chicotadas chamadas de “readas”, aplicadas com um reio usado em cavalos. Em um dos episódios investigados, quatro vítimas receberam entre 15 e 25 golpes cada.
Inclusive, áudios atribuídos ao pastor indicam privação de comida como forma de punição. Conforme as investigações, os integrantes eram chamados de “piões”, enquanto os dormitórios recebiam o nome de “baia”. A polícia também apontou monitoramento constante por câmeras e separação entre homens e mulheres dentro da comunidade.
ABUSOS SEXUAIS SÃO INVESTIGADOS
A Polícia Civil informou que os homens eram os principais alvos dos abusos sexuais investigados. Uma das vítimas relatou que sofria manipulação psicológica e afirmou conviver até hoje com lembranças traumáticas do período em que permaneceu na igreja.
Durante o cumprimento dos mandados, os investigadores apreenderam folhas contendo mais de 100 repetições da frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder”. Segundo a polícia, o material era utilizado como forma de punição aplicada aos integrantes submetidos ao controle interno da instituição.
Outra vítima afirmou que sofreu agressões, isolamento e privação de refeições. Ela relatou ainda que permaneceu trancada em um quarto sem contato com outras pessoas. O material recolhido durante a operação será analisado e anexado ao processo que investiga o caso de trabalho degradante na igreja.







