
BRASIL, 06 de maio de 2026 — O Desenrola até reduz o endividamento das famílias brasileiras. A conclusão consta de um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School. A análise modelou os principais fatores que influenciaram os débitos no período.
O programa obteve coeficiente de -0,44 ponto na redução do endividamento. Esse valor compensou quase três quartos da pressão combinada das bets (+0,37) e dos juros (+0,23). “O problema”, diz a análise, “é que, encerrado o programa, a pressão voltou”.
O economista Claudio Felisoni, professor da FIA, observa que os juros são o fator mais antigo e estrutural do endividamento brasileiro. Taxas elevadas amplificam o endividamento ao encarecer o crédito.
O Brasil convive com uma das maiores taxas de juros reais do mundo. Esse cenário não mudou desde o primeiro Desenrola, lançado em julho de 2023.
As bets foram o fator de maior impacto positivo sobre o endividamento no modelo (+0,37). “A regulamentação do setor chegou com atraso significativo”, diz a análise. As famílias que apostam se endividam de forma mais rápida. O efeito é mensurável e estatisticamente robusto.
Felisoni afirma que o mesmo governo que não criou condições para reduzir os juros regulamentou as bets tarde demais. “Agora propõe um programa para limpar parte do estrago”, acrescenta o economista.
A primeira versão do Desenrola permitiu renegociações com descontos de até 90%. O parcelamento chegou a 60 meses. Na Faixa 1, o governo ofereceu garantia direta para famílias de baixa renda. “O efeito foi uma redução mensurável e sustentada na velocidade de crescimento do endividamento”, afirma o estudo.
O modelo revela, porém, o limite do instrumento. Encerrado o Desenrola, o endividamento retomou trajetória de alta. “O programa resolve o estoque da dívida acumulada, mas não altera o fluxo que a gera”, diz a análise.
O novo Desenrola mantém renegociação com juros de até 1,99% ao mês. Os descontos variam entre 30% e 90%. A novidade inclui o saque de até 20% do FGTS, o que transfere risco ao trabalhador no longo prazo. Existe ainda a exigência de suspensão do acesso às bets por um ano.
Felisoni aponta que a suspensão das apostas expõe uma contradição. Se as bets são o maior fator de endividamento (+0,37), a resposta estrutural seria regulação mais rigorosa. O atual modelo oferece apenas suspensão temporária para quem pede socorro ao Estado.
O ambiente macroeconômico em 2026 é mais adverso do que em 2023. A taxa Selic segue elevada em 14,5% ao ano. O modelo indica que essa variável continuará pressionando o endividamento.
“O programa terá de trabalhar contra uma corrente mais forte do que na rodada anterior”, afirma Felisoni.







