
BRASÍLIA, 04 de maio de 2026 — O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes utilizou o argumento de excesso de duração de investigações para negar a prorrogação da CPI do Crime Organizado no Senado, mas, dias depois, passou a defender a continuidade por tempo indeterminado do Inquérito das Fake News na Corte.
A contradição foi destaque em editorial do jornal Gazeta do Povo publicado neste domingo (3).
Ao barrar a extensão da CPI, que funcionou por seis meses e tinha pedido de prorrogação por mais quatro — conforme previsão regimental —, Gilmar afirmou que “não é raro que entre nós, aqui […] tranquemos os inquéritos eternos, as investigações que acabam se alongando no tempo”. Ele disse ainda que “as prorrogações indevidas ou sem critério não rimam com a ideia do devido processo legal”.
A justificativa, no entanto, contrasta com declarações recentes do próprio ministro sobre o Inquérito das Fake News, aberto no STF em 2019 e que completou sete anos em março.
Em entrevistas recenties, Gilmar defendeu a ideia de que a apuração permaneça ativa. Questionado no Jornal da Globo, afirmou que o inquérito “vai acabar quando terminar” e que o tribunal deveria “mantê-lo pelo menos até as eleições”.
“É evidente que Gilmar não defenderia justamente agora o fim do inquérito no qual ele quer ver investigado o seu mais novo desafeto”, afirma o jornal. “Mas essa sinceridade tão característica de quem tem a certeza de poder fazer o que bem entende sem ser cobrado confirma (de novo) que o Inquérito das Fake News de fato não passa de uma ferramenta de autoproteção do Supremo e intimidação de seus críticos.”
O editorial sustenta que o inquérito é um exemplo de investigação prolongada sem critérios objetivos. “Se há algo que merece os adjetivos ‘indevido’ e ‘sem critério’, é o Inquérito das Fake News”, afirma o texto, ao lembrar que o procedimento foi instaurado de ofício pelo STF, sem provocação do Ministério Público.
A Gazeta destaca como a investigação, inicialmente voltada a apurar ameaças à Corte, foi esticada ao longo dos anos. O inquérito “já serviu para censurar críticos da Corte e veículos de comunicação”, além de alcançar fatos sem relação direta com o Supremo, como o cartão de vacinação do ex-presidente Jair Bolsonaro.







