
BRASIL, 26 de agosto de 2026 — “Não tem quase nada no meu carrinho e foram R$ 400.” “Metade do mês e o dinheiro acabou.” Ou “Mas como oito itens custaram R$ 100?” Se você nunca falou algo parecido, certamente já ouviu. Os índices e os números podem parecer confusos e o governo jurar que o país vai bem, mas na boca do caixa o brasileiro sabe: compramos cada vez menos e com mais dinheiro.
“A verdade é que estamos sobrevivendo”, desabafa Helena Ribeiro, de 46 anos. “A pessoa leva duas horas para chegar ao emprego, trabalha o dia inteiro e encara mais duas horas para voltar, e o salário não paga nem as contas básicas.”
O choque de quanto as coisas custam e o desespero de o salário não cobrir o mês se tornaram rotina. Uma pesquisa da Serasa Experian divulgada nesta semana mostra que 53% dos trabalhadores brasileiros chegam ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as despesas depois de receber o salário. Ainda foi melhor do que em 2025, com 54%.
“Os dados mostram que a dificuldade de equilibrar o orçamento não é uma situação pontual para uma parcela relevante dos trabalhadores”, diz Délber Lage, diretor de soluções para RH da Serasa Experian. “Além de comprometer a capacidade de lidar com imprevistos, essa falta de margem pode levar à busca por alternativas para complementar a renda ou financiar despesas do dia a dia.”
CASAS BAHIA E OS NÚMEROS NÃO MENTEM
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reafirma sempre que pode que a alta de preços no país é causada principalmente pelos impactos da guerra no Oriente Médio e não só da política fiscal praticada pelo governo federal. Mas é justamente no governo que começa o problema que vai fazer a Helena comprar pouco gastando muito.
O governo tem um Orçamento que estipula o limite de gastos do ano (chamado de arcabouço fiscal). Mas, para driblar esse teto, ele consegue autorização para gastos extras por meio do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Na prática, as contas ficam maior do que o resultado oficial.
Essas despesas não somem. Por isso que, entre tantos índices, a melhor referência é a Dívida Bruta do Governo Geral em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) do país. Nela estão as despesas teóricas e reais do que o governo gasta. A dívida do Brasil atingiu o montante histórico de R$ 10,8 trilhões, o equivalente a 81,9% do PIB. Os dados são do Banco Central. Estimativas do mercado apontam para mais de 100% do PIB até 2032.
Quando um governo gasta mais do que pode, provoca um efeito dominó na economia: o mercado passa a duvidar de sua capacidade de pagamento e exige mais garantias, como juros mais altos. A taxa básica de juros, a Selic, que serve de referência para contratos e financiamentos de pessoas e empresas, subiu de 2% em 2020 para 14% em 2026.
O acúmulo de anos com juros em patamares elevados compromete a renda familiar. Com isso, as pessoas não só compram menos como aumenta a inadimplência de quem tem parcelas a vencer. O Brasil registrou o maior patamar de inadimplência de sua história em julho: são quase 84 milhões de pessoas endividadas. O valor médio é $ 7 mil por pessoa.
Um país onde as pessoas passaram a parcelar pizza e comida não está bem. Eis aqui outro recorde pelo qual que o ministro passou batido: mais de 9 milhões de CNPJs negativados. A dívida acumulada passa de R$ 230 bilhões.
Além disso, nunca se registrou pedido de recuperação judicial de tantas empresas. Somente nesta semana foram as grandes varejistas Casas Bahia e Marabraz e a Estrela (marca de brinquedos fundada há quase 90 anos). É um sinal vermelho para todos.







