
BRASÍLIA, 29 de setembro de 2026 — No último mês antes do primeiro turno das eleições, o governo do presidente Lula (PT), que disputa a reeleição, vem anunciando uma série de medidas com impacto fiscal, aumentando a pressão sobre o Orçamento deste ano e principalmente a partir de 2027.
Em pouco mais de uma semana, o governo reajustou o Bolsa Família em 15,04%, prorrogou o subsídio ao óleo diesel por mais 30 dias, criou uma nova etapa do programa Desenrola e proibiu as apostas esportivas online (bets), eliminando uma fonte bilionária de arrecadação.
Também anunciou a intenção de incorporar medicamentos injetáveis para a obesidade ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A proximidade com o pleito de outubro leva à conclusão inevitável de uso eleitoral das ações, o que o governo nega. Segundo a equipe econômica, o reajuste do Bolsa Família, por exemplo, foi anunciado quando se percebeu haver “espaço fiscal” para fazê-lo.
O analista político Luan Sperandio, diretor de operações do Ranking dos Políticos, explica que a adoção de medidas de apelo popular que priorizam o cálculo eleitoral em detrimento de critérios técnicos impõe riscos imediatos e de longo prazo.
“De imediato, o impacto é fiscal e de comprometimento da eficiência nas políticas públicas”, diz. “São políticas sem análise de viabilidade, costumam ter custos subestimados, implementação mais cara e resultados aquém do prometido. Além disso, podem criar despesas que são permanentes e difíceis de reverter”, explica.
“No longo prazo, há também o risco institucional. Se prevalece a sensação de que vale tudo para ganhar eleição, então a cada dois anos tendemos a ver ações piores do que as anteriores, numa espécie de leilão de promessas cada vez maiores”, avalia Sperandio.
Para além do problema fiscal, há controvérsias jurídicas em relação a algumas das medidas recentes da gestão Lula. O reajuste do Bolsa Família às vésperas da eleição é questionado pelo candidato à presidência Renan Santos (Missão), que acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para suspendê-lo.
A ação foi distribuída ao ministro André Mendonça, mas até o momento não houve decisão de mérito nem suspensão do aumento. Paralelamente, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), reconheceu a validade do decreto a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU).
A MP que extingue as bets, por sua vez, é alvo de ação da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que argumentam que a proibição do setor foi publicada sem justificativa aceitável que demonstre real urgência, além de insegurança jurídica pela interrupção abrupta.
Um pedido de suspensão da MP foi apresentado nesta segunda (28) ao gabinete do ministro Luiz Fux, do STF. Caso não seja possível suspender a MP, as entidades pedem que seja estabelecido um período de transição de seis meses para o encerramento das operações.







