
BRASÍLIA, 23 de julho de 2026 — O terceiro mandato de Lula (PT) caminha para se tornar o mais caro da história da Presidência da República em despesas com cartões corporativos. O avanço ocorre em meio a episódios envolvendo gastos com viagens oficiais, hospedagens em hotéis de alto padrão, renovação do mobiliário do Palácio da Alvorada e outros itens associados ao cotidiano de luxo do presidente e da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.
Levantamento com dados oficiais e auditados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) aponta desembolso de R$ 55,4 milhões da Presidência em despesas com cartão corporativo no atual mandato.
Em valores do Portal da Transparência corrigidos pela inflação, o primeiro mandato de Lula (2003-2006) ainda lidera o ranking de gastos com cartões corporativos da Presidência, com R$ 70 milhões. Em seguida vêm Lula 2 (R$ 57 milhões), Dilma Rousseff 1 (R$ 50 milhões), Jair Bolsonaro (R$ 39 milhões), Michel Temer (R$ 18 milhões) e Dilma 2 (R$ 12 milhões).
A tendência, porém, é de mudança ao fim do atual mandato. Após os R$ 55,5 milhões apurados até abril de 2025, resta ainda computar 20 meses de execução orçamentária, até dezembro de 2026. Mantido o ritmo médio de R$ 2 milhões por mês, o Lula 3 se encerrará com o maior gasto da série histórica dos cartões corporativos da Presidência desde a sua criação, em 2001.
Em paralelo, os gastos com diárias e passagens do Executivo superam R$ 4,5 bilhões em três anos e meio. No mesmo período, o Palácio da Alvorada passou por ampla reforma e troca de móveis, ao custo de dezenas de milhões de reais, evocando debates sobre austeridade e transparência.
O governo afirma que os desembolsos bilionários refletem necessidades operacionais, de segurança e de recomposição do patrimônio público. Os opositores, contudo, veem nos números inflados sinais de uma Presidência excessivamente dispendiosa e incompatível com a responsabilidade fiscal.
Casal presidencial mostra preferência por hotéis de alto padrão no exterior
Hospedagens em hotéis de alto padrão tornaram-se importante alvo de críticas à terceira passagem de Lula na Presidência. Suas missões oficiais priorizaram estabelecimentos cinco estrelas, como o InterContinental Paris Le Grand, o Le Negresco (Nice) e o Taj Palace (Nova Déli), de diárias caras.
Despesas do Lula 3 com hotelaria subiram de forma expressiva. Dos R$ 44 milhões desembolsados em viagens internacionais em 2025, cerca de R$ 18 milhões foram para hospedagem de comitivas. Gastos com hotéis atingiram R$ 20 milhões do orçamento anual de R$ 52 milhões para missões externas.
Embora parte das acomodações tenha sido custeada pelos países anfitriões ou integrada à logística oficial das visitas de Estado, parlamentares e órgãos de controle questionaram critérios de escolhas, o tamanho das comitivas e o patamar gasto em hotéis de alto luxo, sobretudo de Paris e Nova York.
As críticas foram reforçadas pela clara dificuldade em se obter informações detalhadas sobre algumas viagens. No caso da ida de Janja a Nova York, em 2024, pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) receberam respostas incompletas sobre hospedagem, alimentação e a origem dos recursos.
Sofá de R$ 65 mil e cama de R$ 42 mil chamaram atenção nos primeiros dias
Em abril de 2023, a Presidência comprou, com dispensa de licitação, sofá de R$ 65 mil e cama de R$ 42 mil para o Palácio da Alvorada. A justificativa foi a necessidade de recompor o mobiliário e substituir peças que estariam supostamente ausentes ou deterioradas quando Lula assumiu o governo.
Os dois itens integraram amplo conjunto de compras. Antes, em fevereiro, foi noticiada a compra de 11 móveis por R$ 379 mil, sob mesma justificativa de recomposição do acervo. Os bens públicos de uso do casal presidencial que estariam “desaparecidos” estavam em um depósito da Presidência.
No fim de 2023, reportagens registraram a compra de tapete por R$ 114 mil para o Palácio do Planalto. Também foi citado um serviço de piso na sede da Presidência no valor de R$ 156 mil. A explicação apresentada para o tapete foi a intenção de conferir maior “brasilidade” à decoração.
Durante a visita oficial a Portugal, em abril de 2023, Janja publicou foto de Lula usando gravata da grife italiana Ermenegildo Zegna. Reportagens localizaram peça semelhante por 195 euros, então equivalente a R$ 1.093. Ela ressaltou nas redes sociais que fez a compra com dinheiro próprio.







