
BRASIL, 24 de julho de 2026 — O desempenho da indústria de transformação brasileira piorou pelo segundo ano consecutivo na comparação com outros países. É o que mostram números da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e compilados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
Segundo o levantamento, a indústria de transformação brasileira recuou 0,1% nos primeiros três meses de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado colocou o Brasil na 69ª posição de um ranking de 90 países, que mede o crescimento do setor no trimestre.
O país havia ocupado a 33ª posição no início de 2024, caiu para a 47ª em igual período de 2025 e agora recuou ainda mais.
A queda no ranking ocorre mesmo com o crescimento de 1,5%, de acordo com a metodologia da Unido, na comparação do primeiro trimestre deste ano com os últimos três meses de 2025.
O cálculo já é livre de fatores sazonais. A expansão foi suficiente para que o Brasil pulasse 11 posições do ranking em três meses, saindo da 80ª colocação, mas o bastante não para reverter a piora em prazos mais longos.
Na comparação com o primeiro trimestre de 2025, enquanto a produção da indústria de transformação brasileira ficou praticamente estável, a manufatura mundial avançou 3,1%. A indústria global mantém um ritmo de expansão superior a 3% na comparação interanual desde o início de 2025.
Na América Latina, Argentina (-2,3%) e México (-1,8%) registraram retrações mais intensas frente ao primeiro trimestre de 2025. A queda da produção industrial da região foi de 0,4% na comparação anual. Já frente ao trimestre imediatamente anterior, o avanço de 1,5% da indústria brasileira ajudou a América Latina a registrar alta de 0,3%.
A apreciação cambial também influencia esse quadro, afirma. Embora beneficie setores que dependem de insumos importados, o câmbio valorizado amplia a concorrência de produtos estrangeiros no mercado doméstico.
Em um cenário de acirramento da competição, isso aprofunda pressões e evidencia problemas estruturais de competitividade da indústria brasileira.
A raiz deste cenário, de acordo com Leme, está no desequilíbrio fiscal. “O crescimento expressivo dos gastos públicos pressiona a dívida, que exige juros mais altos por mais tempo, e alimenta sucessivas rodadas de aumento de impostos. Para a indústria, o resultado é um custo de capital que inviabiliza o investimento produtivo”, comenta.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) diz que análises trimestrais são importantes, mas refletem mais questões conjunturais. No cenário global de bruscas mudanças geopolíticas, é também essencial observar o contexto de cada país, afirma.
Segundo a pasta, no caso brasileiro, pesam a instabilidade internacional, os juros elevados por longo período, os tarifaços dos Estados Unidos – especialmente sobre a indústria de transformação – e a guerra comercial entre as principais potências.
O Mdic destacou ainda que políticas industriais voltadas ao adensamento tecnológico e a setores de maior intensidade tecnológica devem ser avaliadas no médio e longo prazo, segundo o Banco Mundial. Seus principais efeitos tendem a aparecer entre três e cinco anos. Ganhos de inovação e competitividade podem levar uma década ou mais.
Para o Mdic, é mais adequado aferir dos impactos da política industrial utilizando dados de períodos mais longos e observar se houve incremento em relação ao padrão anterior.
Dados da OCDE e do Eurostat sobre desempenho da indústria de transformação colocam o Brasil na 44ª posição (entre 50 países) de 2016 a 2018; e na 38ª entre 2019 e 2022. De janeiro de 2023 a abril de 2025, o país fica na 20ª posição.
Entre 2023 e 2025, o crescimento acumulado da indústria de transformação brasileira (3,2%) foi o sexto maior do G20, diz o Mdic, à frente de França, EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, Canadá e México, conforme dados da Unido.
Esse crescimento se deu com aumento de 2% na participação dos setores de maior intensidade tecnológica.







