
ESTADOS UNIDOS, 23 de julho de 2026 — Os Estados Unidos impuseram uma nova tarifa ao Brasil, de 12,5%, nesta quinta (23), pela acusação de que as exportações feitas pelo país se beneficiam de trabalhos forçados.
A nova taxa será aplicada, ao todo, a 60 economias que foram alvo da mesma acusação. Há também, uma lista de produtos isentos, que inclui carne, café e outros itens. Mercadorias que já eram alvo de tarifas pela Seção 232 ficam isentas da nova cobrança.
A medida entra em vigor à 1h01 desta sexta (24), hora de Brasília. Na prática, a nova cobrança substituirá outra tarifa, de 10%, que estava em vigor desde fevereiro e havia sido adotada depois que a Suprema Corte derrubou as tarifas recíprocas que o presidente Donald Trump havia criado em abril de 2025.
A nova cobrança varia de acordo com o país. Alguns deles, que teriam aplicado medidas mais firmes contra o trabalho forçado, serão taxados em 10%. São eles: Argentina, Bangladesh, Camboja, Canadá, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Índia, Indonésia, Jordânia, Malásia, México, Paquistão, Sri Lanka, Trinidad e Tobago e Reino Unido.
Haverá, ainda, uma taxa intermediária entre 10% e 12,5% para alguns produtos da União Europeia, Taiwan, Japão, Coreia e Suíça.
Os demais países, como o Brasil, foram alvo da tarifa de 12,5%.
Na semana passada, o Brasil já havia sido alvo de outra tarifa, de 25%. Assim, parte dos produtos poderá ter uma cobrança somada de 37,5%. Os EUA divulgaram duas listas de isenções, com milhares de itens, e que ainda estão sendo analisadas, para determinar qual será o impacto exato das novas cobranças.
JUSTIFICATIVA DAS TARIFAS
Os EUA acusam os outros países de se beneficiarem de trabalhos forçados, apesar de várias evidências em contrário.
“Por quase 100 anos, a lei dos EUA proibiu a importação de bens extraídos, produzidos ou fabricados total ou parcialmente com trabalho forçado. Essa proibição reconhece não apenas as preocupações humanitárias associadas a permitir que terceiros lucrem com o sofrimento de outros, mas também as preocupações de política externa e segurança nacional decorrentes da exploração de trabalhadores”, disse o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), ao anunciar a abertura do processo.
“Tal exploração ameaça os produtores nacionais que precisam competir com bens estrangeiros produzidos com uma vantagem de custo artificial e pode prejudicar os trabalhadores e cidadãos dos EUA ao distorcer a concorrência e a compra de bens produzidos em condições exploratórias”, diz o USTR.
Para os EUA, o trabalho forçado é definido como “trabalho ou serviço extraído de uma pessoa sob a ameaça de qualquer penalidade por sua não execução e para o qual o trabalhador não se oferece voluntariamente.”
“A ação de hoje começará a corrigir o que é tanto uma violação dos direitos humanos quanto uma prática comercial distorcida, visando melhorar o bem-estar dos trabalhadores em todo o mundo. Estou encorajado pelos parceiros comerciais que agiram rapidamente para adotar proibições de importação de produtos que utilizam trabalho forçado e espero garantir sua efetiva aplicação”, disse Jamieson Greer, representante comercial dos EUA e chefe do USTR, nesta quinta-feira, 23, em comunicado.
A RESPOSTA DO BRASIL
Este processo, também realizado por meio da Seção 301, foi iniciado em março e teve audiências públicas no início de julho. Em uma carta enviada ao processo, o governo do Brasil rejeitou as acusações americanas.
“O Brasil reitera que há ampla evidência nos autos da investigação, apresentada pelo Governo do Brasil, que demonstra que o Brasil instituiu e aplica ativamente medidas para combater o trabalho forçado e impedir que bens produzidos com trabalho forçado façam parte das cadeias de suprimentos brasileiras”, disse o chanceler Mauro Vieira, em carta enviada ao USTR.
Após a divulgação da nova tarifa, o governo brasileiro condenou a medida.
“O Governo brasileiro rechaça a decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifas de 12,5% sobre produtos brasileiros em função do resultado da investigação da Seção 301 relativa à proibição de importação relacionada ao trabalho forçado. Na ausência de base legal interna para sustentar sua política comercial protecionista, o USTR optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais”, disse a Presidência, em nota.
“Vale ressaltar, ainda, que o Brasil é reconhecido há décadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) pelos fortes compromissos assumidos no combate ao trabalho forçado”, prossegue a nota.
O governo promete dar respostas em duas frentes. “Tendo em vista o caráter completamente arbitrário e injustificado das tarifas anunciadas contra o Brasil, iniciaremos imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e levaremos o tema ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC”, afirma, citando a Organização Mundial do Comércio.
A outra tarifa de 25%
Em 15 de julho, os EUA aplicaram outra tarifa de importação de 25% a produtos brasileiros. Os EUA deram isenções a 699 produtos, que somam US$ 22,8 bilhões do total exportado em 2025, segundo dados da ApexBrasil.
A nova cobrança entrou em vigor na quarta-feira, 22, com exceções para itens que estiverem em trânsito. A cobrança se soma a outras taxas já pagas pelos produtos.
A tarifa foi adotada após uma investigação feita contra o Brasil, por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025. No começo de junho, o USTR, um órgão do governo americano, concluiu que o Brasil age de forma não razoável no comércio bilateral, por práticas como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.
O USTR avalia que essas práticas dão vantagens indevidas ao Brasil no comércio, e propôs uma nova tarifa para tentar reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos EUA. A decisão foi chancelada pelo presidente Donald Trump.
Essa cobrança de 25% impacta 2.375 produtos, que representaram US$ 7,2 bilhões em exportações em 2025, segundo dados da ApexBrasil. O valor representa 19,2% das exportações brasileiras no período.







