
BRASÍLIA, 05 de novembro de 2026 — A eleição para a presidência do Senado Federal é só em fevereiro de 2027, mas desde já Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) só pensa em como se garantir no cargo por mais dois anos. Diferentemente da última vez, quando foi eleito com 73 dos 81 votos possíveis, não será um passeio. A oposição agora é forte.
Só o PL formou uma bancada de 29 senadores já com vista a apeá-lo do cargo e ditar a pauta. Por isso ele vem usando todo o aprendizado do tempo em que trabalhava no comércio da família para promover um saldão de final de mandato.
Nos últimos dias, parte de sua agenda vem sendo reservada a despachos com senadores recém-eleitos para barganhar votos em troca de gabinetes e até vagas de garagem melhores, além de uma fatia dos recursos para emendas que serão incluídas no Orçamento do ano que vem sem a participação dos novatos.
Outra parte do tempo vem sendo destinada ao mapeamento dos espaços que Alcolumbre e seus aliados, em especial os do Centrão, reivindicarão no quarto mandato de Lula.
Na lista de prioridades estão as 18 diretorias de agências reguladoras que esperam pela indicação do presidente da República para ser preenchidas. Muitas estão vagas há meses justamente porque o próprio Alcolumbre, discordando das potenciais escolhas de Lula, se recusou a encaminhá-las para chancela dos senadores.
Agora vai, acredita o presidente do Senado, sentado sobre os louros do enterro da escala 6×1 e da aprovação da PEC da Segurança Pública. E tem mais. Na mira de Alcolumbre também estão ministérios e estatais cobiçadas como o Banco do Brasil, em que ele sempre sonhou mandar.
Parece muito poder para uma única pessoa, mesmo se ela estiver sentada na cadeira da presidência do Congresso. Mas, assim como se tornou comum na campanha presidencial dizer que esta não era uma eleição comum, para alguns personagens-chave de Brasília, esta disputa pela presidência do Senado também não é.
Para Lula, que deve a Alcolumbre a votação do fim da escala 6×1 na reta final da eleição e a aprovação da PEC da Segurança, mantê-lo no cargo significa fazer seu governo andar, ainda que custe bons nacos de poder.
Para o Centrão, que saiu da eleição espremido entre esquerda e direita, a vitória de Alcolumbre garante cargos e emendas que podem ajudar a recuperar o que perderam nas urnas — além de evitar que tenham de se equilibrar entre o governo e a direita, o que é sempre mais complicado.
Mas poucos têm mais interesse em renovar o mandato do presidente do Senado do que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em especial Alexandre de Moraes.
Nas raras entrevistas que dá, Alcolumbre quase não fala do que quer para o país, mas é sempre muito claro ao dizer que, enquanto estiver no comando, não se vota impeachment de togado.
Só que muita gente se elegeu em outubro prometendo destronar ministros do STF, incluindo os senadores do PL, que anunciaram ontem apoio a Rogério Marinho (RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro.
Alcolumbre, que conhece bem o eleitorado, sabe que não há outro jeito de desmantelar a “bancada do impeachment” senão lhe oferecer o que houver de melhor.
Foi o que fez dando a relatoria da Lei de diretrizes Orçamentárias, um dos mais estratégicos postos disponíveis, a Eduardo Gomes, do PL do Tocantins. Para Lula, ter um senador da oposição relatando as regras do seu Orçamento é sempre uma pedra no sapato. Mas ninguém chiou.
Afinal, garantir Alcolumbre no comando é também se garantir no poder. Com os ministros do STF blindados, abre-se espaço até para um acordão que abrevie o final das investigações do caso do Banco Master e dos desvios do INSS.
O que tem de gente em Brasília disposta a pagar qualquer preço por um desfecho desses não é brincadeira.
Por O GLOBO










