
Se houvesse bolsonarismo na Judeia, o resultado da votação entre Jesus e Barrabás seria tratada como fraudado. Antes mesmo de Lula e das urnas eletrônicas, o povo já escolhia criminosos em votações. Afirmar que o resultado das eleições presidenciais no Brasil se deveu apenas por conta de fraude é de uma inocência absurda.
A piada inicial tem um fundo sério: muita gente só acredita na soberania popular quando o povo vota como ela deseja. Quando milhões escolhem o adversário, a hipótese de uma escolha legítima parece intolerável. Fraude vira explicação pronta. O eleitor, esse sábio infalível, só pode ter sido enganado.
Lula chegou ao segundo turno de 2026 com cerca de 53,88 milhões de votos e terminou com 64,26 milhões, vencendo com 51,79%. Flávio Bolsonaro ficou com 48,21%. O salto da votação petista pode e deve ser analisado para além da explicação rasa de fraude nas urnas.
E quando eu vejo tudo se resumindo a fraude em urna eletrônica, costumo lembrar de uma frase do jornalista H.L. Mencken. “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”.
O MITO DA DEMOCRACIA
A democracia define quem governa. Não certifica a inteligência, a virtude ou a competência do povo. O voto é uma escolha política, não um atestado de bom senso. Multidões podem escolher mal e não precisam de urna adulterada para isso.
A crença de que a vontade do povo é infalível soa até como piada.
O fato é que a direita brasileira demonstra certa inabilidade em reconhecer o fato de que o eleitor simplesmente pode fazer uma escolha ruim. Nas últimas duas eleições, quando os resultados contrariam as expectativas de quem passou o segundo turno inteiro comemorando enquanto a esquerda pedia voto, a culpa é da fraude nas urnas. A hipótese de que milhões de pessoas possam ter escolhido livremente aquilo que consideramos um desastre político parece intelectualmente insuportável para a direita brasileira.
A mesma direita que sabe de cada milímetro dos vícios e ignorância do eleitorado conclui que houve fraude quando esse eleitorado viciado e ignorante faz a opção pelo pior.
O equívoco fundamental da direita brasileira está em confundir legitimidade democrática com qualidade da decisão. A democracia estabelece um procedimento para a escolha dos governantes. Não oferece certificado de inteligência, honestidade ou competência ao povo.
Os exemplos da estupidez do eleitor nos EUA e em Israel
Como explicar que o eleitor norte-americano, tão orgulhoso de seus valores e de sua civilização, tenha elegido um representante de uma religião de fanáticos que prega livremente a destruição dos EUA e de seus cidadãos? O Islã transformou os Estados Unidos no “Grande Satã”. Terroristas islamistas transformaram essa obsessão na carnificina no 11 de setembro. E qual a resposta do eleitor norte-americano tempos depois? Elegeram um muçulmano prefeito da cidade alvo do atentado e agora um senador.
Desde sua fundação, em 1948, Israel enfrentou sucessivas tentativas de aniquilação promovidas por países árabes. São décadas de conflitos, ameaças genocidas e campanhas contra a existência de israel. Pois bem: nas eleições de outubro de 2026, os israelenses elegeram nada menos que 19 deputados de partidos árabes para seu Parlamento, quase o dobro da representação anterior.
Essas legendas que negam aspectos fundamentais da democracia israelense têm a simpatia de milhares de eleitores… israelenses. A democracia tem dessas extravagâncias: até um Estado cercado por inimigos históricos pode entregar parte de seu futuro político a representantes desses inimigos. Tudo isso pelo voto. Sem que seja necessário inventar uma fraude.
A democracia é tão generosa em suas possibilidades que permite às galinhas elegerem a raposa como prefeita do galinheiro.
AINDA O BRASIL
No Ceará, a contradição é mais próxima de casa. Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, foram registradas 219 ocorrências de expulsão de famílias de suas casas pelo crime organizado. Cidades inteiras foram desalojadas pelo tráfico de drogas. Ainda assim, Elmano de Freitas foi reeleito com 53,19% dos votos válidos.
O eleitor tinha diante de si a realidade da insegurança e renovou o mandato. Pode-se discutir por que fez essa escolha. O que não se pode é fingir que a responsabilidade desaparece assim que o voto é contado. Depois, cobrar do governo aquilo que se decidiu tolerar na urna é uma forma cômoda de terceirizar a própria participação.
Isso não encerra as perguntas sobre a eleição. Levantamento do Poder360 apontou 16 medidas do governo Lula que somavam R$ 411,2 bilhões em recursos, crédito e benefícios para o eleitorado. Para que roubar uma eleição na urna se você pode comprar o eleitor?
E A JUSTIÇA?
Enquanto grita contra as urnas, o direitista brasileiro esquece de cobrar explicações sobre a diferença no tratamento dado pela Justiça Eleitoral em relação às campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. A defesa do bolsonarista afirmou que pedidos da chapa de Lula recebiam resposta em média após 36 horas e 57 minutos, enquanto os seus levavam 75 horas e 21 minutos. Citou ainda um pedido atendido em três minutos, diante de outro, nos mesmos autos, cuja análise teria sido postergada após 64 horas.
Por que a Justiça Eleitoral brasileira não é cobrada por explicações de seus critérios atabalhoados? Ora, porque bolsonaristas já decidiram que a eleição de Lula se deu não por abuso de poder político, econômico e anuência da Justiça, mas por conta de fraudes nas urnas.
O ERRO ESTRATÉGICO
Além de absolver o eleitor canalha, a obsessão por fraude é um erro estratégico. Enquanto o bolsonarista procura um defeito na máquina de votação, deixa fora de foco questões mais difíceis, e potencialmente mais decisivas, como a Justiça Eleitoral e o uso do poder político e econômico e as condições desiguais em que a disputa foi travada. Se houve abuso, é aí que a investigação e a crítica precisam se concentrar, com fatos e provas visíveis, plausíveis, objetivos e observáveis. Não esse fantasma subjetivo de fraude
Especificamente neste ano, a teoria da fraude também serve para inocentar a direita de sua preguiça e de sua soberba e do esquecimento de que política se faz convencendo pessoas e conquistando votos. A urna não rouba a vitória de quem sequer conseguiu persuadir o eleitorado.
Enquanto petistas faziam o Diabo para conquistar votos, bolsonaristas se aglomeravam em bloquinhos para comemorar a vitória que ainda não havia sido conquistada.
Transformar a derrota em conspiração pode consolar as mentes mais rasas. Contudo, não constrói alianças, não corrige erros de campanha, não amplia apoio. O adversário continua disputando votos enquanto seus críticos discutem a máquina. E nenhuma eleição se vence denunciando o eleitor por ter escolhido o outro.
A democracia não é infalível porque o eleitor não é infalível. Ela oferece meios para substituir governantes, mas não garante que o eleitor seja um bom eleitor.
Talvez seja essa a verdade mais difícil de aceitar pela direita, a de que eleições também podem produzir resultados que consideramos profundamente equivocados.
Culpar as urnas por toda derrota é uma maneira confortável de absolver os políticos, os partidos, as instituições, a Justiça, os maus eleitores e, sobretudo, suas próprias responsabilidades.
O problema nem sempre está na máquina que registra o voto.
Às vezes, está na pessoa que aperta o botão e/ou na pessoa que ficou comemorando ao invés de pedir voto.









