
MUNDO, 19 de janeiro de 2026 – Primeiro veio a consolidação de parcerias internacionais com cartéis latinos responsáveis pelo fornecimento de entorpecentes para o mercado nacional, a partir dos anos 2000. Depois, foi a sociedade com diversas máfias europeias, como a italiana ‘Ndrangheta, para a distribuição das drogas ilegais no Velho Mundo.
Agora a bola da vez nas rotas de narcotráfico a partir do Brasil é a África, que pelo menos desde 2020 vem se consolidando como um dos mais importantes hubs de redistribuição de cocaína no mundo, desempenhando um papel central no elo entre a produção latino-americana, a logística brasileira e os mercados consumidores da Europa, do Oriente Médio e da Ásia.
A cooperação entre as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) com organizações africanas, cartéis andinos e máfias europeias aponta para a formação de consórcios criminais transnacionais, capazes de movimentar grandes volumes de cocaína, operar sistemas de lavagem de dinheiro e explorar fragilidades institucionais de múltiplos países.
É o que apontam investigações da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal em conjunto com a Interpol, e dados oficiais analisados no estudo “Floresta em pó”, do Instituto Fogo Cruzado em parceria com a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas e a Drug Policy Reform & Environmental Justice International Coalition, além de outras instituições, publicado no final de outubro de 2025.
GOLFO DA GUINÉ DESPONTA COMO CORREDOR PARA O NARCOTRÁFICO AFRICANO
Na África, o Golfo da Guiné desponta como o principal corredor contemporâneo do narcotráfico no continente.
Portos em Lagos (Nigéria), Tema (Gana) e Abidjan (Costa do Marfim) foram incorporados a redes sofisticadas de logística controladas por facções brasileiras, notadamente o PCC, em parceria com organizações criminosas nigerianas e cartéis colombianos, aponta o relatório internacional.
Nesse circuito, os portos brasileiros de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Suape (PE) têm papel central no escoamento de grandes remessas de drogas, com ênfase para cocaína, frequentemente ocultas em cargas de frutas, café, carnes congeladas e produtos industrializados. E esses pontos de partida brasileiros se multiplicam para outros portos.
Do lado de lá do oceano, o estudo aponta que outro eixo fundamental se desenvolve no Atlântico Central, envolvendo Cabo Verde, Senegal e Guiné-Bissau. Nessa rota do narcotráfico Brasil-África, a posição geográfica e a fragilidade institucional são fatores determinantes.
Guiné-Bissau, considerada um narcoestado em relatórios recentes do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), tornou-se ponto de armazenamento e transbordo de cocaína destinada principalmente à Península Ibérica e ao norte da Europa.
“Portos como Praia (Cabo Verde) e Dakar (Senegal) recebem cargas provenientes, sobretudo, de Natal (RN), Pecém (CE) e Salvador (BA), o que evidencia a crescente relevância dos portos nordestinos para essa conexão transatlântica”, afirma a análise.







