
BRASÍLIA, 16 de fevereiro de 2026 – Levantamento realizado pela Folha identificou que nove ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e 12 parentes próximos são sócios de pelo menos 31 empresas em atividade no país. Entre os negócios estão 13 escritórios de advocacia ou institutos de direito, além de seis companhias voltadas à gestão e ao mercado imobiliário.
A lista inclui participações diretas e indiretas dos magistrados, além de empresas em nome de cônjuges e filhos. O número real de negócios pode ser ainda maior, pois sócios ocultos nem sempre aparecem em registros públicos.
Esse é o caso do ministro Dias Toffoli, que admitiu ser sócio da Maridt, holding que controlava o resort Tayayá, vendido posteriormente a um fundo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A Lei Orgânica da Magistratura permite que juízes integrem o quadro societário de empresas e recebam dividendos, mas proíbe o exercício de cargos de administração. Para filhos e cônjuges de ministros, não há vedação legal específica.
Apesar da permissão legal, a participação em empreendimentos privados pode levantar questionamentos sobre suspeição ou conflito de interesses em decisões judiciais.
Em sessão no STF no último dia 5, o ministro Alexandre de Moraes defendeu o direito de magistrados serem sócios de companhias e classificou as críticas como “má-fé”.
Na ocasião, Dias Toffoli ironizou a situação ao afirmar que, se a regra fosse diferente, juízes teriam que doar heranças a instituições de caridade, lembrando que vários magistrados são fazendeiros ou donos de empresas.
A Folha procurou os ministros por meio da assessoria do STF, mas não obteve retorno. A reportagem também contatou filhos e esposas por email ou telefone, e apenas dois comentaram o caso, além de uma ex-cônjuge.
As informações sobre as empresas foram obtidas em registros públicos, incluindo aquelas com indícios de ligação com os magistrados mesmo sem seus nomes no quadro societário.
Gilmar Mendes lidera em número de negócios
O ministro Gilmar Mendes é o que possui o maior número de empresas, com participação em seis negócios direta ou indiretamente.
Entre eles está a Roxel Participações, que tem capital social de R$ 9,8 milhões e é sócia de três empresas do grupo IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), além da Gmf Agropecuária e da Mt Crops, de insumos agrícolas.
Os dois filhos do ministro também têm empresas. Francisco Schertel é sócio do IDP e do escritório Schertel Ferreira Mendes Advogados, enquanto Laura Schertel Mendes mantém uma sociedade individual de advocacia.
A ex-esposa de Gilmar, Guiomar Lima, é advogada no escritório Sergio Bermudes e afirmou à Folha que nunca atuou no STF por respeito à instituição, apesar de não ter impedimento legal.
Moraes não tem empresas, mas familiares sim
Alexandre de Moraes não possui empresas registradas em seu nome, mas sua esposa, Viviane Barci, é sócia de três companhias.
O escritório Barci de Moraes foi aberto em 2004, tem capital social de R$ 500 mil e conta com dois filhos do casal como sócios. Já o Barci e Barci Sociedade de Advogados foi aberto em 22 de setembro de 2025, mesma data em que Viviane foi incluída nas sanções da Lei Magnitsky.
Viviane e os três filhos também são sócios do Lex – Instituto de Estudos Jurídicos, que promove cursos e possui capital social de R$ 5 milhões. Ao todo, as empresas ligadas à família do ministro somam R$ 5,6 milhões em capital social. Os registros mostram a participação da família em diferentes ramos do direito e da educação.
Zanin e Valeska mantêm negócios no direito e imóveis
O ministro Cristiano Zanin e sua esposa, Valeska Zanin, são sócios de duas empresas: a Attma Participações, focada em gerenciamento de patrimônio, e o Instituto Lawfare, voltado a cursos. O instituto mantém registro ativo, mas seu site e perfis em redes sociais estão desatualizados desde 2022. A Attma tem capital social de R$ 260 mil.
Valeska também é sócia de outras três empresas ativas, incluindo duas incorporadoras imobiliárias: Triza Participações e Mito Participações, que juntas somam R$ 1,2 milhão de capital social. Além disso, ela integra a sociedade da Zanin Martins Advogados, escritório aberto em 2022 que, segundo o site, tem foco na “defesa em crimes financeiros”.
Empresas de Nunes Marques e familiares
O ministro Kassio Nunes Marques é sócio de duas empresas, a Nunes & Marques Administradora de Imóveis e a Educacional e Capacitação Ltda, ambas administradas por familiares e com capital social total de R$ 130 mil.
Seu filho, Kevin de Carvalho, possui um escritório de advocacia com seu nome, aberto em 2024, e é sócio do IPTG (Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária).
As empresas do filho somam R$ 150 mil de capital social. Em nota, a assessoria de Kevin afirmou que não há qualquer relação entre os negócios e a atuação do ministro no STF. A informação busca esclarecer que as atividades empresariais são independentes da função pública do pai.
Mendonça e Dino têm negócios na área jurídica
O ministro André Mendonça e sua esposa, Janey Mendonça, são sócios da Integre Cursos e Pesquisa, empresa aberta em maio de 2022, após Mendonça assumir a cadeira no STF.
Janey já foi sócia do Instituto Iter, que tem participação na Editora Iter e segue comercializando cursos do ministro, embora seu nome não conste mais entre os sócios acessíveis publicamente.
Flávio Dino é sócio do Idej (Instituto de Estudos Jurídicos), aberto no Maranhão em 2003 com capital social de R$ 10 mil. O instituto atua na área de formação jurídica e completa o quadro de participações de ministros em empresas ligadas ao direito e à educação, setores com potencial relação com as atividades do tribunal.
Filhos de Fux e Fachin mantêm escritórios
Os ministros Luiz Fux e Edson Fachin não possuem empresas em seus nomes, mas seus filhos são sócios ou proprietários de companhias. Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, tem dois registros para o mesmo escritório, o Fux Advogados, que soma R$ 82 mil de capital social.
Sua assessoria informou que ele é o único membro da família que atua no escritório.
Melina Fachin, filha do presidente da corte, Edson Fachin, é advogada e tem duas sociedades empresariais: a Mahalta Participações, de gestão de imóveis, e o escritório Fachin Advogados Associados, fundado pelo ministro.
A outra filha, Camila Fachin, é médica e possui duas empresas ligadas à saúde no Paraná, que somam R$ 11 mil de capital social.







