
MARANHÃO, 26 de fevereiro de 2026 – A expressão “efeito Streisand” é usada por pesquisadores de comunicação para definir um fenômeno social comum na internet: às vezes, o esforço para censurar um discurso acaba tendo impacto reverso e servindo para dar publicidade a ele.
No Brasil, esse pode estar sendo o resultado do empenho do Judiciário em impedir críticas ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas.
Uma pesquisa Genial/Quaest da semana passada mostrou que 43% dos brasileiros – quase metade da população – discordam da afirmação “as urnas eletrônicas são confiáveis”. Para comparação, em maio de 2022, em um levantamento do mesmo instituto, eram 22% os brasileiros que afirmavam não confiar nas urnas.
No intervalo de tempo entre as duas pesquisas, houve uma sucessão de medidas do Judiciário brasileiro para definir que a suspeita sobre o sistema eleitoral é não só ilícita, mas um crime contra a democracia.
Entre as muitas decisões nesse sentido, um ex-presidente ficou inelegível até 2030 por ter levantado questionamentos sobre o sistema eleitoral em uma reunião com embaixadores, e o Supremo Tribunal Federal condenou a sete anos de prisão, como “golpista”, um engenheiro que pedia maior transparência sobre as urnas.
Durante as eleições de 2022, houve uma onda de censura a postagens críticas sobre as urnas nas redes sociais.
O silenciamento funcionou na superfície: parlamentares que antes levantavam suspeitas sobre o sistema eleitoral, por exemplo, têm sido mais cautelosos em expressar visões nesse sentido, diante da ameaça de perda de mandato. No sentimento real da população, contudo, a desconfiança só aumentou.
“É claro que, quando você proíbe um assunto de ser discutido, as pessoas vão desconfiar da conclusão prevalente sobre o assunto”, afirma o especialista em liberdade de expressão Pedro Franco, mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio e em Estudos Interdisciplinares pela Universidade de Nova York.
“Imagina, por exemplo, se uma universidade proíbe discutir certa teoria. ‘A teoria X foi comprovada, não se pode mais discuti-la’. As pessoas vão desconfiar. Como assim, não pode mais discutir? Não pode mais tentar falsificar a teoria, para ver se a teoria fica de pé?”, complementa.
Para Franco, o problema de credibilidade de que o Supremo padece acaba agravando a desconfiança no caso específico das urnas.
“Quando é uma instituição em que as pessoas não confiam – como é obviamente o caso do STF, uma instituição cuja credibilidade se deteriora cada vez mais –, é praticamente garantia que, em relação a qualquer assunto cuja discussão eles proíbam, as pessoas vão, quase que por reflexo, ficar ainda mais curiosas”, observa.
“A desconfiança, o efeito Streisand, já é uma coisa natural em circunstâncias normais de temperatura e pressão. Quando é uma instituição em que as pessoas não confiam, isso fica ainda mais amplificado.”
A pesquisa Genial/Quaest mais recente foi realizada de 5 a 9 de fevereiro de 2026, com entrevista de 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 120 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e índice de confiabilidade de 95%.
O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o nº BR-00249/2026.







