MÁFIA DO TRANSPORTE

Grupo de transporte desvia verba para mineradora no Maranhão

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Grupo ônibus
Investigação revela que Expresso Rei de França transferiu R$ 1,6 milhão destinados ao transporte público de São Luís para empresa de mineração do mesmo grupo.

SÃO LUÍS, 19 de março de 2026 – Em meio a uma crise financeira que atinge funcionários e motoristas, o grupo Expresso Rei de França transferiu R$ 1,6 milhão em verbas do transporte público de São Luís para uma mineradora do mesmo grupo empresarial.

Os repasses ocorreram entre setembro e novembro de 2025, conforme revelam extratos bancários de duas empresas do grupo. A movimentação faz parte de um total de R$ 6,7 milhões em débitos registrados no período.

A Goldcoltan, empresa de mineração que recebeu os valores, pertence a Pedro Paulo Pinheiro Ferreira, conhecido como PP, que também é vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de São Luís (SET).

Além da mineradora, existe uma segunda empresa com nome similar, a Goldcoltan Services Ltda, voltada a serviços de limpeza, que está registrada em nome da filha do empresário. Os extratos bancários detalham ainda pagamentos de cartão de crédito e aluguéis em nome de Pedro Paulo.

O grupo Expresso Rei de França atravessa processo de recuperação judicial devido a dívidas que somam R$ 177 milhões.

A empresa opera linhas de transporte coletivo na capital maranhense e tem como proprietária nominal a fotógrafa Deborah Piorski Ferreira, filha de Pedro Paulo, que reside em Fortaleza, distante cerca de 670 km da sede da companhia.

O SET, entidade comandada por PP, gerencia a receita dos bilhetes de transporte público e repassa os valores às empresas autorizadas.

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MANOBRA

A transferência dos recursos do transporte público para a mineradora ocorreu como estratégia para escapar de bloqueios judiciais enfrentados pelas empresas de ônibus.

A advogada do grupo, Evelline Freitas, confirmou ao Metrópoles que a sistemática de centralização financeira foi adotada justamente por conta das constrições recorrentes nas contas das empresas em recuperação judicial.

“As empresas em recuperação judicial vinham sofrendo bloqueios e constrições recorrentes em suas contas. Diante desse cenário, foi adotada uma sistemática operacional de centralização financeira, com repasses ao final do dia para conta vinculada à Goldcoltan, a partir da qual eram realizados pagamentos de despesas operacionais essenciais do grupo”, afirmou a advogada Evelline Freitas.

A situação tem chamado a atenção de credores, que apontam possível configuração de blindagem patrimonial. A própria defesa do grupo admite a manobra, mas não esclareceu os pagamentos de despesas pessoais de Pedro Paulo identificados nos extratos.

Os documentos bancários mostram repasses de R$ 131,7 mil via Pix diretamente ao empresário ou com descrições como “Aluguel PP”, “Cartão de crédito PP”, “Locação apto PP” e “Enxoval PP”.

FAMÍLIA CONTROLA REDE DE EMPRESAS

Levantamentos extrajudiciais revelam uma rede de CNPJs mantidos em nomes da esposa e filhos de Pedro Paulo. Credores do grupo Expresso Rei de França apontam que os parentes são utilizados como “laranjas” para ocultar o verdadeiro controlador das empresas.

A própria Expresso Rei de França teve PP como administrador entre abril de 2021 e janeiro de 2024, quando a filha Deborah assumiu o controle por meio de uma holding.

Documentos da Junta Comercial do Maranhão indicam que a transação de controle da empresa custou R$ 1 milhão. Deborah Piorski, que se apresenta como fotógrafa de moda em Fortaleza, não retornou os contatos da reportagem.

A filha mais nova, Jessica Piorski, também figura como proprietária de múltiplos negócios, incluindo a Goldcoltan Services Ltda, a Viação Tucujus Ltda, no Amapá, a JPF Trade Importação e Exportação Ltda e a P3 Bank Ltda.

Em manifestação à imprensa, a advogada Evelline Freitas reiterou que os lançamentos não podem ser interpretados de forma isolada como desvios. A representante legal argumentou que as transferências estavam inseridas em uma dinâmica de preservação da continuidade operacional diante das restrições bancárias enfrentadas.

“Sobre os lançamentos mencionados, é importante esclarecer que as empresas em recuperação judicial vinham sofrendo bloqueios e constrições recorrentes em suas contas, inclusive relacionados a passivos e medidas decorrentes de situações pretéritas”, explicou.

A advogada do grupo acrescentou que a sistemática adotada visava permitir a manutenção das atividades empresariais e o cumprimento de obrigações correntes. Mesmo questionada especificamente sobre os pagamentos do cartão de crédito e aluguéis de Pedro Paulo, a defesa não apresentou esclarecimentos.

“Eventuais esclarecimentos adicionais poderão ser prestados em momento oportuno, pelos canais adequados, com a devida análise técnica e documental do caso”, limitou-se a afirmar Evelline Freitas.

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