
BRASÍLIA, 12 de fevereiro de 2026 – A Polícia Federal produziu um relatório que traz evidências de ligações entre Daniel Vorcaro e o Banco Master com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, que é o responsável pelo processo sobre crimes cometidos pelo banco.
Foram encontradas em celulares de Vorcaro registros de conversas dele com Toffoli, um convite de aniversário que aponta a proximidade dos dois e conversas do banqueiro com terceiros que fariam referência a pagamentos supostamente atribuídos ao ministro.
A reportagem apurou com fontes ligadas à investigação que as possíveis relações pessoais entre o ministro Dias Toffoli e o empresário Daniel Vorcaro vão além de “uma controvérsia pontual”.
Evidências apontam que elas afetam a imparcialidade, a legitimidade processual, a transparência e equilíbrio institucional entre STF e PF. O ministro diz que “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro.”
O relatório está em sigilo, mas após o vazamento na imprensa de parte das informações apuradas, o gabinete de Toffoli divulgou uma nota admitindo que ele é sócio da empresa Maridt, que até fevereiro de 2025 era dona de parte do resort Tayaya Ribeirão Claro, no Paraná.
Participações da empresa de Toffoli e seus familiares no hotel de luxo foram vendida a um fundo que pertence ao cunhado de Vorcado, o pastor e empresário Fabiano Zettel. A nota do ministro argumenta que por lei ele tem direito a ter participação em empresas, desde que não faça parte da gestão.
O relatório da PF sobre as ligações de Vorcaro e Toffoli tem cerca de 200 páginas e é baseado em grande parte em informações extraídas de celulares de Vorcaro tanto na primeira quanto na segunda fase da operação Compliance Zero. Ele foi entregue ao presidente do STF, Edson Fachin.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que caberá agora ao Supremo decidir se há motivo para afastar o ministro Dias Toffoli da relatoria das investigações sobre o Banco Master.
Ainda não está claro se haverá um pedido de suspeição de Toffoli e como a Procuradoria-Geral da República se manifestará. A PF também solicitou no relatório a Fachin a autorização para fazer novas diligências dentro da investigação.
PRINCIPAIS PONTOS QUE VIERAM A PÚBLICO
Ministro pode ter recebido pagamentos relacionados ao resort Tayaya; ele nega
Um dos pontos centrais da controvérsia envolve o resort Tayayá, empreendimento de luxo localizado no interior do Paraná que teve entre seus proprietários a empresa Maridt, cujos sócios são os irmãos José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, além do próprio ministro.
A perícia realizada pela Polícia Federal no celular do empresário Daniel Vorcaro identificou conversas que fariam referência a pagamentos atribuídos ao ministro Toffoli, segundo relataram fontes ligadas à investigação.
De acordo com as informações apuradas, o nome do magistrado apareceria em mensagens que mencionam valores de forma cifrada, além de registros envolvendo o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel. As conversas seriam de Vorcado com terceiras pessoas e não com o ministro Toffoli.
Nas mensagens não se fala em valores específicos, mas que a transação da parte da família Toffoli no resort teria superado os R$ 6,5 milhões, segundo apurou a reportagem.
O gabinete de Toffoli divulgou nesta quinta-feira (12) uma nota afirmando que “o Ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel.”
A nota diz ainda que a Maridt integrou o grupo Tayaya Ribeirão Claro até 21 de fevereiro de 2025. “A participação anteriormente existente foi integralmente encerrada por meio de duas operações sucessivas, sendo a primeira a venda de cotas ao Fundo Arllen, em 27 de setembro de 2021, e a segunda a alienação do saldo remanescente à empresa PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025”.
O Fundo Arllen pertence ao cunhado de Vorcaro, o pastor e empresário Fabiano Zettel, que chegou a ser preso pela Polícia Federal na segunda fase da operação Compliance Zero, em janeiro.
A PHD Holding pertence ao empresário e advogado Paulo Humberto Costa, que atua para a JBS, processadora de alimentos da J&F Holdings, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
A Polícia Federal teria identificado conversas nas quais Vorcaro menciona pagamentos vinculados a essa estrutura empresarial, o que levou os investigadores a incluírem os dados no relatório encaminhado ao presidente do STF.
A nota de Toffoli diz que ele desconhece o gestor do Fundo Arllen e argumenta que, de acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, “o magistrado pode integrar o quadro societário de empresas e delas receber dividendos, sendo-lhe apenas vedado praticar atos de gestão na qualidade de administrador”.
O texto também ressalta que todas as operações financeiras e atos da Maridt foram comunicadas à Receita Federal e as vendas ocorreram dentro do valor de mercado.
O principal ponto em questão não é a legalidade do ministro ser sócio de uma empresa, mas as conexões passadas dela com o Banco Master, cujo processo está sendo conduzido por Toffoli no STF.







