
BRASÍLIA, 15 de janeiro de 2026 – A deflagração, nesta quarta (14), da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura as fraudes bilionárias do Banco Master, evidenciou o mal-estar instalado entre a Polícia Federal, que executa a investigação, e o ministro Dias Toffoli, relator e supervisor do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).
Alvo de desconfiança desde que avocou o caso para si, no ano passado, após viajar ao Peru num jatinho privado com o advogado de um dos diretores do banco, o ministro decretou sigilo máximo e condicionou qualquer diligência na investigação à sua prévia autorização.
A Gazeta do Povo apurou junto a investigadores que mesmo a PF está tendo acesso limitado e dificuldade para analisar as provas coletadas.
Nesta quarta, quando a PF cumpriu ordens de busca contra os empresários Fabiano Zettel e Nelson Tanure, sócios de Daniel Vorcaro, dono do banco, o ministro inicialmente determinou que celulares, computadores e documentos apreendidos fossem “lacrados” e “acautelados” no STF, sob sua guarda.
A decisão surpreendeu a PF, que recorreu queixando-se do risco de “frustração da operação caso não fosse realizada a imediata submissão dos dispositivos apreendidos à exploração técnica-pericial”.
Em geral, equipamentos e papéis apreendidos ficam em poder da PF para uma perícia imediata dos arquivos que podem servir de prova. Os documentos são copiados e os dados extraídos para serem armazenados de forma segura e integral, sem adulteração ou risco de exclusão.
Durante a tarde, Toffoli passou a sofrer críticas na imprensa e no meio político, reverberando o estranhamento da decisão. Inicialmente, divulgou nota afirmando que “o acautelamento imediato tem por finalidade a preservação das provas recolhidas pela autoridade policial e serão devidamente periciadas pelas autoridades competentes”.
Depois, numa segunda nota, informou que os materiais apreendidos ainda não haviam chegado ao STF, e que os aparelhos recolhidos deveriam ser guardados pela PF “eletricamente carregados e em modo desacoplado das redes telefônicas e de wi-fi, para a devida preservação de seu conteúdo e oportuna extração e periciamento pela autoridade encarregada”.
O risco, apontado por investigadores, era de que arquivos guardados em celulares e computadores poderiam ser deletados à distância, em serviços de nuvem, caso os equipamentos permanecessem ligados e conectados à internet.
À noite, em nova decisão polêmica, o ministro determinou o “encaminhamento direto” do material apreendido da PF para a Procuradoria-Geral da República (PGR), que havia se manifestado pela manutenção das provas na PF.
Toffoli ainda mandou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, tomar as “providências necessárias” para remeter os objetos ao órgão, sob o argumento de que cabe ao Ministério Público a “formação da opinião ministerial sobre a materialidade e autoria dos delitos em apuração”.
Segundo a PF, na operação foram apreendidos 39 celulares, 31 computadores, 30 armas, R$ 645 mil em espécie e 23 veículos, avaliados em R$ 16 milhões. No total, os policiais cumpriram 42 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Houve ainda determinação de bloqueio de R$ 5,7 bilhões.
Nas decisões, Toffoli indicou que Daniel Vorcaro teria continuado a praticar delitos, mesmo após sua prisão em novembro, na primeira fase da operação (determinada quando o caso ainda estava na primeira instância da Justiça Federal em Brasília).
Na decisão da noite, de encaminhar as provas para a PGR, apontou que a investigação “possui escopo mais amplo”, pois teria revelado que “fundos eram operados para a gestão fraudulenta, o desvio de valores e o branqueamento de capitais pelo Banco Master em um quadro de suposto aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização”.
A investigação partiu da constatação, pelo Banco Central, de uma fraude de R$ 12 bilhões na venda de títulos sem lastro para o Banco Regional de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal.
O caso ganhou proporções maiores depois que o Tribunal de Contas da União (TCU) resolveu inspecionar o processo de liquidação do Master pelo Banco Central, o que assustou o mercado financeiro pela possibilidade de reversão da medida, seja no TCU ou mesmo no STF.
Com a retirada das provas da PF, o caso agora ganha contornos mais graves, uma vez que o próprio STF passou a ser alvo de desconfiança pela condução do inquérito.
Além do episódio de Toffoli, há uma situação mal explicada envolvendo Alexandre de Moraes, após a revelação, pelo jornal O Globo, de que ele teria pressionado o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em favor do Master no ano passado, enquanto estava vigente um contrato do banco com sua mulher no valor de R$ 129 milhões.







