
BRASIL, 12 de agosto de 2025 – Levantamento do GLOBO aponta que deputados e senadores destinaram ao menos R$ 13,5 milhões por vez de futebol nos últimos três anos.
Os repasses cresceram a partir de 2024 (R$ 10,5 milhões), quando o Supremo Tribunal Federal (STF) aumentou o cerco às emendas para ONGs e prefeituras aliadas. Ao todo, 31 clubes foram contemplados com palavras indicadas pelos parlamentares.
Para explicar a destinação das emendas, o dinheiro costuma ser vinculado a projetos sociais, como a estruturação das categorias de base, que oferecem prática esportiva a crianças e adolescentes. Há casos, porém, em que foram utilizados com o tempo profissional.
Foi o que aconteceu no CSA de Renan. Prestação de contas enviada pelo clube ao Ministério do Esporte informa que R$ 652 mil da emenda custearam a folha de pagamento, incluindo fisioterapeuta, roupeiro, preparadores físicos e de goleiros, além do técnico e jogadores da base.
Outros R$ 224,5 mil foram pagos ao chefe do departamento médico da equipe profissional.
A presidente do clube, Mirian Monte, admite que utilizou o dinheiro para bancar a equipe que apoia o elenco principal, mas afirma que o repasse também atende aos tempos de base.
— Essa emenda foi o que salvou um ano muito complicado do CSA, na manutenção da base. Com esse recurso, a gente conseguiu fazer a base funcionar — afirmou o dirigente.

Segundo ela, o envio foi articulado pelo ex-presidente do Azulão Rafael Tenório, que é suplente de Renan no Senado. Procurado, o ex-cartola não retornou. Já o senador disse que a destinação foi feita às categorias de base e defendeu a investigação sobre eventuais desvios de finalidade.
— Uma emenda foi apresentada para a formação de jogadores. Se o clube usou de forma diferente, sou totalmente favorável ao esclarecimento — disse Renan.
O Ministério do Esporte, por sua vez, afirma que caso seja rigoroso o uso dos recursos para outros fins que não recebam o objeto da emenda, o clube será obrigado a devolvê-los.
“Todos os termos mencionados são oriundos de emenda parlamentar, portanto, de execução obrigatória. E tanto sua destinação, quanto o objeto da execução também são de indicação dos parlamentares”, diz, em nota.
O envio de emendas para o clube da capital contrasta com outras urgências locais. Maceió figura entre as 20 cidades com os piores índices de saneamento básico do país, segundo o Instituto Trata Brasil.
Colega de Renan no Senado, Soraya Thronicke (Podemos-MS) foi outra a demonstrar o amor ao clube de coração com dinheiro do Orçamento. Em abril, ela anunciou uma emenda de R$ 1,5 milhão para o Operário Futebol Clube, o maior campeonato sul-mato-grossense e que atualmente disputa a Série D do Campeonato Brasileiro.
Em um evento em Campo Grande, capital do estado, Soraya comemorou o envio dos recursos ao lado dos ex-jogadores Cafu e Pretinha. Na ocasião, a senadora afirmou que R$ 1 milhão da emenda seria destinada ao time feminino do Operário, enquanto os outros R$ 500 mil ficariam com a equipe masculina.
— O futebol feminino precisa e merece mais visibilidade, estrutura e valorização — afirmou Soraya.
Procurada, a senadora afirmou, por meio de sua assessoria, que a destinação está “de acordo com as específicas previsões para emendas parlamentares individuais, que permitem o direcionamento de recursos federais para projetos de interesse social nas bases dos parlamentares”. Também questionado, o Operário não comentou.
Enquanto o tempo de futebol recebe investimento, Campo Grande acumula obras paradas. De acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), 34 dos 75 empreendimentos com recursos federais no município estão paralisados.







