ENTRELINHAS
Afinal de contas, de que se trata ser mulher?
Por José Linhares Jr • 08/03/2024
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Reflexões sobre uma data isolada que talvez não seja suficiente para abrigar a essência de nossa existência.

Em um mundo em que o sentimento pelas coisas e a opinião sobre as coisas transcende a necessidade de saber o que são as coisas, é cada dia mais difícil estabelecer-se de forma segura na realidade. Situações de grande magnitude, que deveriam ser evidentes por si sós, passam a abrir espaço para debates e preferências subjetivas. Disse G.K. Chesterton certa vez “Chegará o dia em que teremos que provar ao mundo que a grama é verde”. Talvez eu não precise pegar em armas nas próximas linhas, mas com certeza irei despertar a vontade de alguns de usar algum tipo de arma contra mim. Vamos lá, o mundo é dos bravos.

Acredito que vocês, pelo menos os mais ávidos pelos mínimos critérios, defendem a tese de que algo único precisa ter características únicas. O que faz algo ser algo é sua identidade. Parece meio óbvio, certo? E é! Se todas as coisas no universo fossem pequenos círculos verdes com raio de 12 centímetros feitas especificamente pelo mesmo tipo de plástico, tudo seria uma grande repetição e não existiria realidade.

Daí não só a beleza da diferença, mas sua necessidade. Estamos conversados? Pois bem, sigamos.

Mesmo que a mulher seja algo que povoa este mundo nos últimos 2 milhões de anos, o dia 8 de março tem suas origens em um espaço de tempo, e em um certo tipo de mulher, limitado. A simbologia do dia 8 de março, que é alastrada a todas as mulheres de todos os tempos, tem suas origens em fenômenos sindicalistas do século XX. A homenagem trata-se de um tributo a trabalhadoras vítimas de um incêndio nos EUA em março de 1911.

Isso me intriga. 

Será que dois milhões de anos de existência podem ser resumidos a um evento histórico de cunho político? Será que o ser mulher, a identidade da mulher, aquilo que a faz diferente das outras trilhões de bilhões de coisas é o sofrimento no ambiente de trabalho e a discriminação? Ser mulher é sofrimento e opressão pós-Revolução Industrial? 

NATUREZA HUMANA

Antes de continuar falando sobre as mulheres, vamos dar uma pequena visita na natureza da civilização humana. Só nos tornamos povo, saímos das cavernas e dominamos os céus do espaço porque somos e continuamos sendo em um processo de construção ininterrupto de gerações. Somos o resultado daqueles que viveram no passado e aqueles no futuro serão o resultado de nós, presentes, e dos seres do nosso passado. A civilização só existe, desde suas coisas mais odiosas até as mais belas, por conta do nascimento, a tal maternidade.

Sem o nascimento de outros, teríamos parados nos primeiros. Começa com o nascimento e passa para a educação, o cuidado. E só depois, só muito depois, vem a sobrevivência.

A concepção humana e a proteção do humano em seus primeiros anos, a estrutura responsável por toda a existência de tudo o que temos e somos hoje, só o é porque existe a mulher.

Vamos agora propor um exercício de comparação um tanto quanto inusitado: será que um sofrimento originado por uma situação ocorrida há 100 anos define mais adequadamente a essência feminina do que a responsabilidade que a mulher tem carregado por dois milhões de anos pelo nascimento da civilização humana em cada recanto do globo terrestre?

“A mulher não é só isso”, deve pensar o incrédulo, ou incrédula. “Só isso” não cabe em uma frase que determina a responsabilidade pela gestação e nascimento de bilhões de pessoas. Este é um fato e ele independe de sentimentos. Lamento!

“A mulher é bem mais que isso”. Absolutamente correto! Como se não bastasse carregar a responsabilidade pelo nascimento da civilização humana, a mulher ainda transcende a sua função biológica!

A EVOLUÇÃO

Ao longo destes dois milhões de anos, enquanto o homem era forjado na guerra e na selva da barbárie, coube a mulher preparar as bases que impulsionaria o ser humano para superar a natureza e alcançar a liberdade do estado de natureza.

Enquanto o homem guerreava e matava no selvagem, a mulher criava as bases do progresso social no doméstico. E antes que alguém torça o nariz sobre o uso do termo ‘doméstico’, gostaria de lembrar que ele é antônimo de selvagem. O doméstico é o que se contrapõe ao selvagem. Voltemos.

Não é necessário ser um historiador ou sociólogo para compreender que, de forma simplificada, a estruturação da família deu origem às tribos. Essas tribos evoluíram para cidades, que se transformaram em estados, culminando em nações. Essas nações, por sua vez, serviram de fundamento para a construção da sociedade global.

Acho que a grandiosidade existencial e social das mulheres ficara bem delimitadas. Apesar disso, ainda há mais.

Nas últimas décadas, à medida que a civilização avançava tanto tecnológica quanto socialmente, distanciando-se do estado primitivo de selvageria em que a humanidade começou sua trajetória, o alcance da influência feminina tem se expandido consideravelmente.

A mulher não tinha espaço na selvageria porque seus domínios são os da socidade.

Homens dominaram por muito tempo o ambiente profissional, isso é fato. E principalmente quando o ambiente profissional se resumia a vagas para morrer em guerras, morrer em minas, morrer em outras profissões perigosas ou adoecer em tantas outras.

Felizmente, a sociedade evoluiu. Uma evolução que trouxe consigo o abandono gradativo da selvageria e a ascensão profissional das mulheres.

É de facílimo entendimento perceber que quanto mais primitiva era sociedade, menos mulheres no mercado de trabalho havia. Quanto mais ela evolui…

Foi justamente essa jornada pela natureza que garantiu a ela outra qualidade importantíssima: o amor e a sensibilidade. Por estar fora, matando leões ao longo de milhões de anos, o homem tornou-se tão forte e cruel quanto a natureza. O que foi necessário para sobreviver à natureza. Caso contrário, estaríamos até hoje vivendo em cavernas e sendo devorados por animais selvagens.

Estar fora deste ambiente deu a mulher mais sensibilidade, mais racionalidade, compaixão e amor. Creio que seja também, dificultoso, acreditar que quem não convive com selvageria, menos selvagem se torna.

O grau de importância entre a força masculina e a sensibilidade feminina acabaram invertidos ao longo do amadurecimento e evolução humana. A brutalidade que era necessária no passado, tornou-se dispensável no presente. A sensibilidade que era perigosa no passado, é essencial no presente e será mais ainda no futuro.

Dito isso, dito tudo isso, será que podemos resumir a natureza da mulher a um evento particular de um desdobramento da revolução industrial? E sabendo que incêndios em fábricas não eram uma exclusividade de mulheres? Bem como a luta por direitos trabalhistas ou organização sindical?

Eu me recuso a aceitar que a grandiosa natureza da mulher seja guardada em uma caixa tão pequena. 

Eu me recuso a acreditar que o que faz uma mulher, os laços que as unem, seja sofrimento e opressão empregado por homens e empresários. Recuso-me prontamente a acreditar que há um fundamento “sindical” na união feminina.

Ser mulher é bem mais que isso. Muito mais grandioso e muito mais significante.

A importância da mulher não cabe em um recorte histórico transitório, não cabe em um evento particular ou em uma teoria política moderna. A mulher já estava aqui bem antes da modernidade, senhoras e senhores! O ser mulher está em uma prateleira muito acima de fenômenos sociais. O ser mulher tem lugar de destaque na existência da natureza humana.

Antes de fábricas, antes de partidos, antes de empregos e antes de tudo o que estiver relacionado a estas coisas. Esses são espaço incapazes de abrigar a natureza da mulher. Desde a mais poderosa e descomedida até a mais humilde e pacata mulher.

SER MULHER É UM NÚMERO QUE VOCÊ NÃO PODE CONTAR

Dada a grandiosidade da mulher e de sua imponência existencial, também não me peçam para acreditar que ser mulher é estado de espírito ou resultado de transformação. Não, não e não! Da mesma forma que a história e a importância da mulher superam em muito uma data isolada, ser mulher supera, ainda mais, uma simples vontade ou estado de humor.

Ser mulher é uma condição única de contemplar a intrincada interseção entre a biologia e a identidade feminina. Ser mulher não é apenas uma questão de vontade ou desejo, mas sim uma condição que está enraizada na própria essência da existência.

É a união harmoniosa entre os aspectos físicos e metafísicos que delineiam a verdadeira feminilidade. Reconhecer-se como mulher vai além de meras aspirações; é uma espécie de reconhecimento cósmico que valida e autentica sua presença na teia da vida.

Nesse sentido, é fundamental desprezar a ideia simplista de que a mera vontade de ser mulher é suficiente para sê-lo, pois a verdadeira feminilidade emerge da interação entre a biologia e a existência, transcendendo os limites impostos por estados de humor ou modinhas.

Ser mulher é algo muito único e grandioso para ser alcançado com algumas peças de roupa e mudança no andar. Não se torna mulher, se nasce mulher.

O ser mulher não é uma escolha, é uma condição de existência. Isto porque a existência só é o que é porque construída sobre alicerces imutáveis e constantes. Sem essas necessidades, haveria apenas o caos.

E a mulher não é caos, é ordem. 

Bem, chegamos ao fim a espero ter deixado claro que o ser mulher não é um produto na prateleira ao alcance de todos e muito menos algo que caiba em um festejo sindical. É fato da existência e nenhuma conversão simples, símbolo sindical, nuance política ou vontade pessoal, tem grandeza para limitar, ou imitar, o que é ser mulher.

Feliz Dia da Mulher.

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