ARTIGO
A sociedade do rápido e do vazio
Por Alex Pipkin • 14/03/2023
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Não consigo precisar exatamente a década. Talvez a década do ano 2000. Como chegamos a esse estado, literalmente, oco?

Grande parte dos indivíduos pensam, comunicam e atuam de forma superficial e desimportante, seguindo básica e exclusivamente seus instintos tribais e as visões enviesadas de seus parceiros em seus grupos de pertencimento. Não há estudo, leitura, discussão séria e honesta, o contraditório e o conhecimento científico comprovado, imperando os achismos, a dissonância cognitiva, a insularidade intelectual, a banalidade e os prazeres mais imediatistas. Tudo isso parece e quer triunfar – as coisas desejadas – como a mais legítima das verdades.

Evidente que a educação e o ensino desempenham influência direta na formação individual – e coletiva -, e, no país, sabe-se, pelos comparativos internacionais, que esses são precários. No entanto, aparenta que esse fenômeno não é exclusividade tupiniquim.

Bauman cunhou a expressão “modernidade líquida” a fim de apontar a personalidade moldável das pessoas aos interesses “da hora”. Nada de errado com o caráter móvel da identidade social, desde que ela seja sustentada em pilares, digamos, sólidos. Não o é; há fragilidades e superficialidades em quase tudo, desde relacionamentos afetivos e comerciais até a formação de ideias e geração de convicções.

Não se investiga a fundo as “coisas”, as temáticas, tirando-se conclusões precipitadas – e equivocadas – a partir de sites de notícias, de manchetes de jornais, de “telefones sem fios” de compadres e de análises de jovens e de velhos jornalistas, amplamente parciais e incultos, sobre uma gama de temáticas. Enfim, o triunfo da banalidade e do absurdo que convém em detrimento do verdadeiro conhecimento e da razão.

Os indivíduos rejeitam a perda e o sofrimento e, em função disso, buscam economizar energia, operando no piloto automático dos atalhos mentais. Muitas vezes, tal comportamento é útil, porém, evidentemente que para uma série de questões complexas, o que está em nossa memória mais fresca não serve, uma vez que não passa de uma mera simplificação da verdade.

Nesse sentido, a sociedade “do algoritmo” aprofunda esse pensamento rápido e automático, instintivo, que é alimentado por sentimentos tribais de nossos companheiros nos respectivos grupos que se unem por afinidades e por interesses nas mais diversas esferas. Como há engajamento, na superficialidade e na frivolidade, embalada pelos instintos mais primitivos.

Para onde vamos? Está muito difícil o mais singelo diálogo. Todos parecem ter tantas certezas, certezas essas que não se sustentam a uma segunda indagação mais técnica e suportada pelo conhecimento, pelas experiências e por fartas evidências.

Muitos incautos se transformaram em “especialistas”, embasados nas redes sociais, de praticamente tudo.
O resultado pragmático dessa situação é que aqueles que possuem conhecimento factual de determinadas “coisas”, ou não têm vez, ou se calam, prevalecendo o achismo, a superficialidade e a burrice – burrice esta acalentada com um verniz de veracidade.

Triste, mas tal nefasto contexto não irá mudar. As instituições de ensino, que se dizem “progressistas”, enfatizam o “moderno e produtivo” método da intensificação do pensamento crítico nos estudantes, que, a partir daí, não fazem outra coisa além de pensar e de vociferar sobre mazelas e desigualdades sociais. Os “justiceiros sociais” são completamente formados com uma única e segregadora visão de mundo. Adicione-se a isso o fato de que, quanto mais chocante e diferente for a forma, melhor será o impacto, independentemente do conteúdo.

Não é necessário estudar e pensar, tudo está aí, pronto… A mídia, amplamente parcial e sensacionalista, potencializa o pensamento rápido, superficial, frívolo e banalizado. Inquestionavelmente. Já as modernas tecnologias da informação, embora benéficas em uma série de aspectos, engajam jovens e velhos em fantasias, em mentiras, em paixões e em iras.

A radiografia do momento é, para dizer o mínimo, tenebrosa. Tudo virou papo e discussão de bar. O imbróglio é que nem mais no bar, com todas as características pertinentes a esse tipo de conversa, é crível explorar alguma coisa que escape da superficialidade da casca e das certezas de pessoas que, definitivamente, pouco conhecem sobre os temas a respeito dos quais dissertam.

Construiu-se uma sociedade oca e radicalmente dividida, fundamentada numa estratégia de soma zero: de um lado aqueles poderosos que têm, e que, por definição, são inimigos de todos aqueles que não têm. Guerra certeira. Nessa tragédia sem heróis salvadores, sempre triunfarão os achismos e as sedutoras “verdades” daqueles que trivialmente sinalizam virtudes, não importando quais sejam tais virtudes.

Alex Pipkin é doutor em Administração – Marketing pelo PPGA/UFRGS.

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